Pôster de Central do Brasil

Crítica: Central do Brasil

1998

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Walter Salles
Roteiro
João Emanuel Carneiro, Marcos Bernstein
Elenco
Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele
Gêneros
Drama
Ano
1998
Duração
1h53
País
Brasil
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Central do Brasil
Imagem: divulgação

Central do Brasil: Fernanda Montenegro conduz uma viagem comovente pelo coração do país

SINOPSEDora é uma ex-professora amargurada que ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Quando um menino fica sozinho na estação, ela acaba, quase a contragosto, embarcando com ele numa viagem ao Nordeste em busca do pai que o garoto nunca conheceu.

Central do Brasil é daqueles filmes que parecem simples na superfície e se revelam enormes à medida que avançam. Walter Salles transforma a jornada de uma mulher cínica e de um menino sem rumo em um retrato afetuoso, mas nada ingênuo, do Brasil profundo. Com Fernanda Montenegro numa das maiores atuações da história do nosso cinema, o longa equilibra emoção e contenção como poucos dramas nacionais conseguiram fazer.

Fernanda Montenegro entrega uma atuação monumental

Dora não é uma personagem fácil de gostar, e é justamente aí que mora a grandeza do trabalho de Fernanda Montenegro. Nas primeiras cenas, ela escreve cartas ditadas por pessoas simples e, à noite, decide em casa quais vai mandar e quais vai engavetar. A atriz não pede simpatia do público: compõe uma mulher endurecida, irônica, sozinha, que usa o sarcasmo como armadura. A mudança que se desenha ao longo da viagem acontece aos poucos, em gestos e silêncios, nunca em viradas forçadas.

O reconhecimento veio à altura. Fernanda ganhou o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim e foi indicada ao Oscar de melhor atriz, feito inédito para uma brasileira até então. Mas, para além dos prêmios, o que fica é a verdade da interpretação: um olhar que endurece, uma risada que escapa, um choro contido. É o tipo de atuação que sustenta um filme inteiro e que, vista hoje, não perdeu nada da força.

Vinícius de Oliveira e a química improvável que sustenta o filme

Encontrar um menino capaz de contracenar de igual para igual com Fernanda Montenegro parecia tarefa impossível, e a escalação de Vinícius de Oliveira, então estreante, virou parte da lenda do filme. Josué é teimoso, desconfiado e esperto, longe da criança idealizada que o cinema costuma oferecer. Essa aspereza é fundamental, porque impede que a relação entre os dois caia no melodrama fácil. Eles brigam, se magoam e se testam o tempo todo, como duas pessoas que não sabem confiar.

O roteiro de João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, a partir de uma ideia de Walter Salles, é econômico e preciso. Cada encontro na estrada, seja com o caminhoneiro vivido por Othon Bastos, seja com romeiros e moradores do sertão, acrescenta uma camada à transformação dos protagonistas. Marília Pêra, como a amiga Irene, rouba as cenas em que aparece e funciona como uma espécie de consciência de Dora, alguém que ainda enxerga a bondade escondida por trás da amargura da amiga.

A fotografia de Walter Carvalho revela um Brasil pouco visto

Visualmente, Central do Brasil faz um movimento muito bonito. Começa no caos sufocante da estação carioca, com multidões, ruído e luz dura, e vai se abrindo conforme a dupla segue para o interior. A fotografia de Walter Carvalho capta o sertão sem exotismo e sem cartão-postal: as estradas, as cidadezinhas, as procissões e os rostos de gente comum ganham uma dignidade que o cinema brasileiro nem sempre soube oferecer a essas paisagens e a essas pessoas.

A trilha de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum segue a mesma linha de delicadeza, com temas suaves que acompanham a emoção sem sublinhá-la demais. Salles tem formação de documentarista, e isso se nota na maneira como a ficção dialoga com o real, especialmente nas cenas de romaria e nos depoimentos de quem dita cartas a Dora. Há momentos em que o filme se aproxima do sentimental, é verdade, mas a direção quase sempre recua a tempo e prefere a sugestão ao excesso.

Vale a pena assistir Central do Brasil?

Vale muito. Central do Brasil é um marco da chamada retomada do cinema nacional e um dos filmes brasileiros mais premiados no exterior, com o Urso de Ouro em Berlim e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro no currículo. Mas a razão para assistir não é o prestígio: é a experiência de acompanhar duas pessoas machucadas aprendendo, aos trancos, a cuidar uma da outra. É um filme que emociona sem manipular e que conversa com qualquer espectador.

Se há uma ressalva, é que alguns trechos da segunda metade flertam com soluções mais convencionais, e certos encontros da estrada parecem desenhados para comover. Nada que comprometa o conjunto. Para quem quer conhecer o melhor do cinema brasileiro, entender a força de Fernanda Montenegro ou simplesmente ver uma boa história de afeto, é indispensável. Prepare o lenço, porque é muito difícil sair indiferente da jornada de Dora e Josué, e várias cenas da estrada tendem a ficar na memória por bastante tempo.

Pontos fortes

  • Atuação monumental de Fernanda Montenegro
  • Química crua com o estreante Vinícius de Oliveira
  • Retrato digno e sem exotismo do sertão

Pontos fracos

  • Alguns encontros da estrada soam calculados
  • Segunda metade flerta com o convencional

Veredito: 4,5/5

★★★★★

Central do Brasil é cinema brasileiro em sua forma mais humana e acessível. Fernanda Montenegro carrega uma história de afeto e redenção que emociona sem apelar. Um clássico nacional que merece ser revisto.

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Perguntas frequentes sobre Central do Brasil

Central do Brasil é baseado em história real?

Não. Central do Brasil é uma ficção original, criada a partir de uma ideia de Walter Salles e roteirizada por João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. O filme, porém, se inspira em realidades brasileiras, como os escritores de cartas para analfabetos e as romarias do sertão nordestino.

Onde se passa Central do Brasil?

A história começa na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde Dora trabalha escrevendo cartas. Depois, a trama vira uma road movie e acompanha a viagem da protagonista e do menino Josué pelas estradas rumo ao interior do Nordeste brasileiro.

Central do Brasil ganhou o Oscar?

Não ganhou, mas recebeu duas indicações: melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro. Em compensação, levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o Urso de Prata de melhor atriz e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

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