
Central do Brasil: Fernanda Montenegro conduz uma viagem comovente pelo coração do país
Central do Brasil é daqueles filmes que parecem simples na superfície e se revelam enormes à medida que avançam. Walter Salles transforma a jornada de uma mulher cínica e de um menino sem rumo em um retrato afetuoso, mas nada ingênuo, do Brasil profundo. Com Fernanda Montenegro numa das maiores atuações da história do nosso cinema, o longa equilibra emoção e contenção como poucos dramas nacionais conseguiram fazer.
Fernanda Montenegro entrega uma atuação monumental
Dora não é uma personagem fácil de gostar, e é justamente aí que mora a grandeza do trabalho de Fernanda Montenegro. Nas primeiras cenas, ela escreve cartas ditadas por pessoas simples e, à noite, decide em casa quais vai mandar e quais vai engavetar. A atriz não pede simpatia do público: compõe uma mulher endurecida, irônica, sozinha, que usa o sarcasmo como armadura. A mudança que se desenha ao longo da viagem acontece aos poucos, em gestos e silêncios, nunca em viradas forçadas.
O reconhecimento veio à altura. Fernanda ganhou o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim e foi indicada ao Oscar de melhor atriz, feito inédito para uma brasileira até então. Mas, para além dos prêmios, o que fica é a verdade da interpretação: um olhar que endurece, uma risada que escapa, um choro contido. É o tipo de atuação que sustenta um filme inteiro e que, vista hoje, não perdeu nada da força.
Vinícius de Oliveira e a química improvável que sustenta o filme
Encontrar um menino capaz de contracenar de igual para igual com Fernanda Montenegro parecia tarefa impossível, e a escalação de Vinícius de Oliveira, então estreante, virou parte da lenda do filme. Josué é teimoso, desconfiado e esperto, longe da criança idealizada que o cinema costuma oferecer. Essa aspereza é fundamental, porque impede que a relação entre os dois caia no melodrama fácil. Eles brigam, se magoam e se testam o tempo todo, como duas pessoas que não sabem confiar.
O roteiro de João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, a partir de uma ideia de Walter Salles, é econômico e preciso. Cada encontro na estrada, seja com o caminhoneiro vivido por Othon Bastos, seja com romeiros e moradores do sertão, acrescenta uma camada à transformação dos protagonistas. Marília Pêra, como a amiga Irene, rouba as cenas em que aparece e funciona como uma espécie de consciência de Dora, alguém que ainda enxerga a bondade escondida por trás da amargura da amiga.
A fotografia de Walter Carvalho revela um Brasil pouco visto
Visualmente, Central do Brasil faz um movimento muito bonito. Começa no caos sufocante da estação carioca, com multidões, ruído e luz dura, e vai se abrindo conforme a dupla segue para o interior. A fotografia de Walter Carvalho capta o sertão sem exotismo e sem cartão-postal: as estradas, as cidadezinhas, as procissões e os rostos de gente comum ganham uma dignidade que o cinema brasileiro nem sempre soube oferecer a essas paisagens e a essas pessoas.
A trilha de Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum segue a mesma linha de delicadeza, com temas suaves que acompanham a emoção sem sublinhá-la demais. Salles tem formação de documentarista, e isso se nota na maneira como a ficção dialoga com o real, especialmente nas cenas de romaria e nos depoimentos de quem dita cartas a Dora. Há momentos em que o filme se aproxima do sentimental, é verdade, mas a direção quase sempre recua a tempo e prefere a sugestão ao excesso.
Vale a pena assistir Central do Brasil?
Vale muito. Central do Brasil é um marco da chamada retomada do cinema nacional e um dos filmes brasileiros mais premiados no exterior, com o Urso de Ouro em Berlim e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro no currículo. Mas a razão para assistir não é o prestígio: é a experiência de acompanhar duas pessoas machucadas aprendendo, aos trancos, a cuidar uma da outra. É um filme que emociona sem manipular e que conversa com qualquer espectador.
Se há uma ressalva, é que alguns trechos da segunda metade flertam com soluções mais convencionais, e certos encontros da estrada parecem desenhados para comover. Nada que comprometa o conjunto. Para quem quer conhecer o melhor do cinema brasileiro, entender a força de Fernanda Montenegro ou simplesmente ver uma boa história de afeto, é indispensável. Prepare o lenço, porque é muito difícil sair indiferente da jornada de Dora e Josué, e várias cenas da estrada tendem a ficar na memória por bastante tempo.
Pontos fortes
- Atuação monumental de Fernanda Montenegro
- Química crua com o estreante Vinícius de Oliveira
- Retrato digno e sem exotismo do sertão
Pontos fracos
- Alguns encontros da estrada soam calculados
- Segunda metade flerta com o convencional
Veredito: 4,5/5
★★★★★Central do Brasil é cinema brasileiro em sua forma mais humana e acessível. Fernanda Montenegro carrega uma história de afeto e redenção que emociona sem apelar. Um clássico nacional que merece ser revisto.
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Perguntas frequentes sobre Central do Brasil
Central do Brasil é baseado em história real?
Não. Central do Brasil é uma ficção original, criada a partir de uma ideia de Walter Salles e roteirizada por João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. O filme, porém, se inspira em realidades brasileiras, como os escritores de cartas para analfabetos e as romarias do sertão nordestino.
Onde se passa Central do Brasil?
A história começa na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde Dora trabalha escrevendo cartas. Depois, a trama vira uma road movie e acompanha a viagem da protagonista e do menino Josué pelas estradas rumo ao interior do Nordeste brasileiro.
Central do Brasil ganhou o Oscar?
Não ganhou, mas recebeu duas indicações: melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro. Em compensação, levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o Urso de Prata de melhor atriz e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.



