Pôster de Tubarão

Crítica: Tubarão

Jaws · 1975

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Steven Spielberg
Roteiro
Peter Benchley, Carl Gottlieb
Elenco
Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Murray Hamilton
Gêneros
Suspense, Aventura, Terror
Ano
1975
Duração
2h04
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Tubarão
Imagem: divulgação

Tubarão: Spielberg transformou um animatrônico quebrado no suspense mais eficaz do cinema

SINOPSENo verão, a ilha de Amity recebe turistas em massa quando uma banhista é encontrada morta na praia. O chefe de polícia Martin Brody suspeita de um tubarão, mas o prefeito teme perder a temporada e resiste a fechar as praias. Brody acaba partindo para o mar ao lado de um oceanógrafo e de um caçador de tubarões veterano.

Tubarão é o filme que inventou o verão de Hollywood e, meio século depois, continua funcionando como poucos. Steven Spielberg tinha 27 anos, um tubarão mecânico que insistia em afundar e uma produção que estourou prazo e orçamento. Dessa confusão saiu um suspense de precisão cirúrgica, em que o medo nasce do que não se vê e do que a trilha de John Williams sugere. Não é apenas um clássico do gênero: é uma aula de como o cinema constrói tensão.

Por que esconder o tubarão funciona melhor do que mostrá-lo?

A lenda é verdadeira: os três modelos mecânicos do tubarão, apelidados de Bruce, falhavam constantemente na água salgada de Martha's Vineyard. Spielberg foi obrigado a filmar os ataques sem o monstro, e a solução virou a assinatura do filme. A câmera de Bill Butler mergulha na altura da superfície, adotando o ponto de vista do predador, enquanto os banhistas se agitam sem perceber nada. Barris amarelos presos ao animal marcam sua posição no terceiro ato, de forma que a ameaça fica visível mesmo quando o bicho não aparece. O espectador preenche o resto com a própria imaginação.

Nada disso funcionaria sem as duas notas de John Williams. O tema do tubarão é um dos raros casos em que a trilha sonora vira personagem: quando ela toca, o perigo existe; quando silencia, Spielberg usa o vazio para armar sustos que pegam até quem já conhece o filme. O diretor ainda recorre ao zoom com travelling contrário, herdado de Hitchcock, no rosto de Roy Scheider durante o segundo ataque na praia, traduzindo em um único movimento de câmera o pânico de um homem que percebeu, tarde demais, que estava certo o tempo todo.

O filme é sobre três homens em um barco, não sobre um peixe

A segunda metade abandona a ilha e se concentra no Orca, o barco em que o policial Brody, o oceanógrafo Hooper e o caçador Quint saem para matar o animal. É aqui que Tubarão deixa de ser apenas um filme de monstro e vira um estudo de personagens. Roy Scheider interpreta um homem com medo de água que precisa provar coragem a si mesmo. Richard Dreyfuss traz a arrogância bem-humorada do cientista rico. Robert Shaw entrega um Quint rude, ressentido e magnético, e o atrito entre os três sustenta longos trechos sem qualquer aparição do tubarão.

O ápice dessa dinâmica é a noite na cabine, quando os três comparam cicatrizes e Quint conta a história do navio USS Indianapolis. Shaw segura a tela por minutos em um monólogo quase sem cortes, escrito com uma economia rara, e o filme muda de temperatura: o que era aventura vira tragédia anunciada. É uma cena que nenhum efeito especial compraria e que explica por que Tubarão envelheceu melhor do que a maioria dos blockbusters que vieram depois. Spielberg confia nos atores e no texto de Peter Benchley e Carl Gottlieb tanto quanto no susto.

Montagem e trilha: o nascimento do blockbuster moderno

A montagem de Verna Fields, premiada com o Oscar, é o que transforma material problemático em suspense limpo. Ela corta sempre um segundo antes do esperado, nunca deixa o tubarão em cena tempo suficiente para que a borracha fique evidente e constrói as sequências de ataque com planos de reação e água revolta. O filme também venceu as estatuetas de Trilha Sonora Original e Som e foi indicado a Melhor Filme, mas Spielberg ficou de fora da categoria de direção, uma das ausências mais comentadas daquela edição e que a Academia só compensaria anos depois.

Comercialmente, Tubarão mudou a indústria. O estúdio apostou em um lançamento simultâneo em centenas de salas, com campanha pesada na televisão, modelo que até então era visto com desconfiança e que se tornou padrão para todo grande lançamento de verão. Mas reduzir o filme a um marco de marketing é injusto. Ele é, antes de tudo, cinema de encenação: ritmo, enquadramento e som trabalhando juntos para manipular o espectador com honestidade. Cinquenta anos depois, ainda não há filme de tubarão que chegue perto, e poucos filmes de suspense em geral.

Vale a pena assistir Tubarão?

Vale, e não apenas como curiosidade histórica. Tubarão continua assustando, e assusta pelos motivos certos: construção de tensão, personagens que importam e um uso de trilha e montagem que virou manual de escola de cinema. Quem só conhece o filme pela fama vai se surpreender com o quanto ele é engraçado, humano e paciente antes de soltar o terror. É um daqueles raros casos em que o blockbuster e o filme de autor são exatamente a mesma coisa, sem concessão de nenhum dos lados.

As ressalvas são mínimas. Os efeitos práticos, nas poucas vezes em que o tubarão aparece por inteiro, denunciam a idade, e o subenredo político do prefeito que se recusa a fechar as praias é resolvido com certa pressa depois de ocupar boa parte do primeiro ato. Nada disso compromete. Nota 4,5 de 5: um dos filmes de suspense mais bem construídos já feitos, e o momento em que Spielberg provou que a limitação técnica pode ser a melhor aliada de um diretor com ideias.

Pontos fortes

  • Suspense construído pela sugestão, não pelo monstro
  • Trio de atores em estado de graça
  • Trilha de John Williams e montagem premiadas

Pontos fracos

  • Tubarão mecânico envelheceu nas cenas em que aparece por inteiro
  • Subenredo político resolvido com pressa

Veredito: 4,5/5

★★★★★

Tubarão é a prova de que o medo bem encenado não envelhece. Spielberg transformou limitações técnicas em linguagem e entregou um suspense que ainda ensina como se constrói tensão. Nota 4,5 de 5.

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Perguntas frequentes sobre Tubarão

Tubarão é baseado em história real?

Não diretamente. O filme adapta o romance homônimo de Peter Benchley, publicado em 1974, que é ficção. Benchley se inspirou em relatos de pescadores e em notícias de ataques de tubarão na costa dos Estados Unidos, mas a trama, os personagens e a ilha de Amity foram inventados para o livro.

O tubarão do filme era de verdade?

Em sua maior parte, não. A produção construiu três tubarões mecânicos, apelidados de Bruce, que falhavam constantemente na água salgada. Algumas imagens de tubarões-brancos reais, filmadas na Austrália pelo casal de mergulhadores Ron e Valerie Taylor, foram usadas em cenas específicas, como a do mergulho na gaiola.

Quantos Oscars Tubarão ganhou?

Três: Melhor Montagem para Verna Fields, Melhor Trilha Sonora Original para John Williams e Melhor Som. O filme também foi indicado a Melhor Filme, mas perdeu, e Steven Spielberg não chegou a ser indicado na categoria de direção naquele ano, apesar do sucesso da produção.

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