Pôster de O Iluminado

Crítica: O Iluminado

The Shining · 1980

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Stanley Kubrick
Roteiro
Stanley Kubrick, Diane Johnson
Elenco
Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers
Gêneros
Terror, Suspense, Drama
Ano
1980
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de O Iluminado
Imagem: divulgação

O Iluminado: o terror de Kubrick que assombra pela precisão, não pelo susto

SINOPSEJack Torrance, escritor em crise, aceita o cargo de zelador de inverno do isolado Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado, e leva a esposa Wendy e o filho Danny. O menino tem um dom que o faz perceber coisas que os adultos não veem, e o hotel guarda um passado violento. Conforme a neve os isola do mundo, a tensão dentro da família cresce.

O Iluminado é um filme de terror que não se comporta como um. Stanley Kubrick recusa quase tudo o que o gênero oferecia em 1980: não há cortes rápidos, sustos sonoros ou monstro à espreita. No lugar, há corredores simétricos, longos travellings e uma lentidão que vai apertando o espectador sem que ele perceba. Rejeitado por parte da crítica na época e pelo próprio Stephen King, o filme se tornou um dos mais analisados da história do cinema, e sua capacidade de perturbar permanece intacta.

Como Kubrick constrói o medo sem recorrer ao susto?

Pela geometria e pelo tempo. O Hotel Overlook é filmado como um labirinto de simetrias impossíveis, com corredores que não se encaixam e salões grandes demais para a família que os habita. A fotografia de John Alcott usa luz abundante em ambientes amplos, criando uma claridade que deveria ser reconfortante e, justamente por isso, perturba: o horror aqui acontece com as luzes acesas. Kubrick prolonga cada plano além do confortável, e é nesse excesso de duração que a inquietação se instala, antes de qualquer imagem explicitamente assustadora aparecer na tela.

O uso pioneiro da Steadicam, operada por Garrett Brown, é o outro pilar. A câmera que persegue Danny em seu triciclo pelos corredores, rente ao chão, alternando o som das rodas sobre madeira e carpete, é uma das sequências mais imitadas do cinema, e sua eficácia vem da fluidez antinatural: a câmera desliza como algo que não é humano. Kubrick combina isso com a trilha de Wendy Carlos e Rachel Elkind e com peças de Penderecki, Ligeti e Bartók, cujas dissonâncias funcionam como um alarme que nunca para de tocar.

Jack Nicholson exagera ou acerta no tom?

A acusação de exagero acompanha Nicholson desde a estreia, e ela ignora o projeto do filme. Kubrick não queria um homem comum que enlouquece aos poucos; queria alguém já rachado desde a primeira cena, cuja deterioração é menos surpresa do que confirmação. Nicholson entrega isso com uma performance teatral, de sobrancelhas e sorrisos largos, que funciona porque o hotel é um palco e Jack sabe disso. A cena da entrevista inicial, aparentemente banal, já mostra um homem fingindo normalidade, e tudo o que vem depois é a máscara caindo.

Shelley Duvall, por muito tempo subestimada, é na verdade o coração do filme. Sua Wendy é frágil, nervosa e constantemente diminuída pelo marido, e a atriz sustenta um estado de terror crescente por quase todo o terceiro ato com uma intensidade física impressionante. A história das condições extremas de filmagem é conhecida, mas o que está na tela é uma atuação de coragem rara. Danny Lloyd, ainda criança, é dirigido com uma naturalidade que preserva a estranheza do personagem, e Scatman Crothers traz calor humano a um filme que quase não tem.

Por que O Iluminado gera tantas teorias e interpretações?

Porque Kubrick deixou o filme deliberadamente aberto. Ao adaptar o romance de Stephen King com a escritora Diane Johnson, ele removeu explicações, eliminou o sobrenatural como causa clara e espalhou detalhes contraditórios pela cenografia: janelas que não deveriam existir, objetos que mudam de lugar, continuidades quebradas que podem ser erro ou intenção. O resultado é um filme que pode ser lido como história de fantasmas, estudo de violência doméstica, alegoria histórica ou relato de um colapso mental, e nenhuma dessas leituras anula as outras.

Essa abertura é também o que frustrou King, que considerou a adaptação fria e distante do drama de um alcoólatra em luta contra os próprios demônios. A crítica do autor é compreensível, mas aponta justamente para o que torna o filme único. Kubrick não estava interessado em redenção, e sim em um mal que existe antes dos personagens e continuará depois deles. A frieza é método: a montagem lenta, os diálogos repetitivos e os planos simétricos criam uma sensação de inevitabilidade que o terror convencional, com seus sustos e catarses, raramente alcança.

Vale a pena assistir O Iluminado?

Vale, com uma recomendação: assista sem pressa e, se possível, em uma tela grande e com bom som. O Iluminado não funciona em segundo plano; ele exige que o espectador aceite seu ritmo e preste atenção nos detalhes, porque é neles que o filme fala. Para quem gosta de terror tradicional, a primeira hora pode parecer lenta, mas a recompensa é uma experiência de tensão acumulada que poucos filmes do gênero entregam. Para quem gosta de cinema em geral, é uma aula de direção, fotografia e desenho de som.

A nota 4,5 reconhece uma obra-prima do gênero com pequenos reparos: certa frieza emocional que mantém o espectador à distância dos personagens, e algumas escolhas de atuação que, isoladas, flertam com o exagero. São características, mais do que defeitos, mas pesam para quem busca envolvimento afetivo com a família Torrance. De resto, O Iluminado é o filme de terror que melhor envelheceu entre seus contemporâneos, e cada revisão revela um detalhe novo escondido nos corredores do Overlook. Poucos filmes merecem tanto a palavra assombroso.

Pontos fortes

  • Direção de Kubrick com controle absoluto de tempo e espaço
  • Fotografia e Steadicam que redefiniram a linguagem do terror
  • Shelley Duvall em uma atuação subestimada e corajosa

Pontos fracos

  • Frieza emocional mantém o espectador distante dos personagens
  • Ritmo lento da primeira hora pode afastar quem busca terror convencional

Veredito: 4,5/5

★★★★★

O Iluminado é terror de precisão cirúrgica, um filme que perturba pela forma antes de perturbar pelo conteúdo. Sua frieza é escolha, não falha, ainda que cobre um preço afetivo. Nota 4,5 de 5.

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Perguntas frequentes sobre O Iluminado

O Iluminado é baseado em livro?

Sim. O filme adapta o romance homônimo de Stephen King, publicado em 1977. Stanley Kubrick e a escritora Diane Johnson assinaram o roteiro e fizeram mudanças significativas na trama e nos personagens, o que levou King a criticar publicamente a adaptação. Em 1997, o autor supervisionou uma minissérie mais fiel ao livro.

O Iluminado é muito assustador?

Depende do que se espera de um filme de terror. O Iluminado tem poucos sustos no sentido convencional e aposta em tensão acumulada, imagens perturbadoras e uma atmosfera opressiva que cresce lentamente. Quem busca sobressaltos pode achá-lo lento; quem se entrega ao ritmo costuma considerá-lo um dos filmes mais inquietantes já feitos.

Onde fica o Hotel Overlook de O Iluminado?

O Hotel Overlook é fictício. Os exteriores vistos no filme são do Timberline Lodge, no Oregon, nos Estados Unidos, enquanto os interiores foram construídos em estúdio na Inglaterra, onde Kubrick filmava. O romance de Stephen King foi inspirado em uma estadia do autor no Stanley Hotel, no Colorado.

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