
La La Land: Damien Chazelle filma a nostalgia com cores vivas e um final que dói
Poucos filmes recentes dividiram tanto o público quanto La La Land. Para uns, Damien Chazelle resgatou o musical clássico com coragem; para outros, entregou um exercício de estilo vazio. A verdade fica no meio, mas pende para o elogio. O filme tem direção segura, fotografia deslumbrante e um terceiro ato que justifica tudo o que veio antes. O que o impede de ser uma obra-prima é um miolo que se arrasta e canções que nem sempre sustentam a ambição.
A abertura no viaduto já entrega o jogo de Chazelle
O número de abertura, filmado em um viaduto congestionado de Los Angeles sob sol a pino, funciona como declaração de princípios. A câmera de Linus Sandgren desliza entre carros e dançarinos como se fosse um plano único, em formato CinemaScope e com cores saturadas que remetem aos musicais da MGM e ao cinema de Jacques Demy. Damien Chazelle avisa desde o primeiro minuto que não está interessado em realismo: o filme é um sonho sobre pessoas que sonham, e cada enquadramento é construído para reforçar essa artificialidade assumida. Quem resiste a esse pacto nos cinco minutos iniciais dificilmente vai embarcar no resto.
O problema de apostar tanto no estilo é que a direção às vezes chama mais atenção do que a história. Há momentos em que a iluminação muda dentro do plano, o fundo escurece e um foco isola o personagem, recurso bonito que Chazelle repete até perder o impacto. Ainda assim, a encenação é inegavelmente precisa. O diretor coreografa a câmera com a mesma disciplina que impôs em Whiplash, e a sequência no planetário do Observatório Griffith, com o casal flutuando entre estrelas, é o tipo de imagem que sobrevive na memória muito depois de a sessão acabar.
Emma Stone e Ryan Gosling cantam bem? Não, e isso é parte do charme
Nenhum dos dois tem voz de Broadway, e Chazelle sabe disso. As canções são gravadas com um registro quase falado, frágil, que aproxima os personagens de pessoas comuns tentando se expressar, e não de artistas treinados. Em Emma Stone, essa escolha rende o melhor momento do filme: a cena do teste em que ela canta sobre a tia que pulou no Sena é filmada em um plano fechado, sem cortes de apoio, e vive inteiramente da expressão da atriz. Foi isso que lhe garantiu o Oscar de Melhor Atriz, e é difícil discordar da escolha.
Ryan Gosling tem a tarefa mais ingrata. Sebastian é um purista do jazz, personagem que beira o insuportável no papel, e o ator o salva com timing cômico e com uma dedicação física impressionante: ele mesmo toca piano em cena, depois de meses de treino, sem dublê de mãos. A química entre os dois, testada antes em Amor a Toda Prova, é o motor do filme. Quando dançam no mirante ao pôr do sol, a coreografia é simples e até um pouco desajeitada de propósito, e é justamente essa imperfeição que torna a cena crível em vez de apenas bonita.
O roteiro afunda no segundo ato, mas a montagem resgata o final
O miolo do filme é onde La La Land perde pontos. Quando Sebastian aceita entrar na banda de Keith, vivido por John Legend, o roteiro entra em uma discussão sobre tradição e modernidade no jazz que soa didática e, pior, pouco convincente. A ideia de que um pianista branco precisa salvar um gênero negro de ser corrompido pelo pop incomodou muita gente na época, com razão. Além disso, o filme abandona por longos trechos a lógica de musical: as canções somem, o ritmo cai e o drama de casal vira algo bem mais convencional do que a abertura prometia.
A recuperação vem no epílogo, e que recuperação. Sem revelar nada, basta dizer que Chazelle e o montador Tom Cross constroem uma sequência de alguns minutos, quase sem diálogo, que relê todo o filme sob outra luz e transforma a nostalgia em algo mais amargo e adulto. A trilha de Justin Hurwitz, que vinha repetindo os mesmos temas, finalmente justifica a insistência quando os motivos se encontram. É um final que divide, porque recusa a resposta fácil, e é exatamente por isso que o filme fica maior do que a soma de suas partes.
Vale a pena assistir La La Land: Cantando Estações?
Vale, principalmente para quem gosta de cinema que assume a própria artificialidade. La La Land é um filme sobre o preço das ambições, embalado como homenagem ao musical clássico, e nos seus melhores momentos consegue ser as duas coisas ao mesmo tempo. A fotografia, a direção de arte e a montagem final estão entre as mais bem executadas do cinema americano da década, e o par central tem carisma suficiente para cobrir as limitações vocais. É um filme que pede entrega, e recompensa quem a oferece.
As ressalvas são reais: o segundo ato se arrasta, o discurso sobre jazz é raso e a repetição de recursos visuais cansa. Mas nenhuma delas anula o impacto do conjunto. É um filme que melhora com uma segunda sessão, quando se sabe para onde ele vai e é possível prestar atenção em como Chazelle planta cada detalhe desde a primeira cena. Nota 4 de 5: um grande filme com defeitos visíveis, não uma obra-prima, mas um dos musicais mais relevantes que o cinema americano produziu neste século.
Pontos fortes
- Fotografia e direção de arte deslumbrantes
- Epílogo que ressignifica todo o filme
- Emma Stone em atuação premiada e merecida
Pontos fracos
- Segundo ato arrastado e pouco musical
- Discurso sobre jazz raso e datado
Veredito: 4,0/5
★★★★★La La Land é um musical ambicioso que acerta na forma e no desfecho, mesmo tropeçando no meio do caminho. A química de Emma Stone e Ryan Gosling e a montagem final garantem a recomendação. Nota 4 de 5.
Quer assistir filmes como La La Land: Cantando Estações?
Chame no WhatsApp e venha assistir aqui.
Perguntas frequentes sobre La La Land: Cantando Estações
La La Land ganhou o Oscar de Melhor Filme?
Não. O filme chegou a ser anunciado vencedor por engano na cerimônia de 2017, mas o prêmio pertencia a Moonlight, e a confusão com os envelopes virou um dos momentos mais famosos da história do Oscar. La La Land levou seis estatuetas, incluindo Direção para Damien Chazelle e Atriz para Emma Stone.
Ryan Gosling toca piano de verdade em La La Land?
Sim. O ator passou meses estudando piano antes das filmagens e executou ele mesmo as peças que aparecem em cena, sem dublê de mãos. As sequências foram filmadas de forma a mostrar rosto e teclado no mesmo plano, o que torna o esforço evidente para quem assiste.
Quantos Oscars La La Land ganhou?
Foram seis vitórias em catorze indicações, número que empatou o recorde de indicações da premiação. O filme venceu Direção, Atriz, Fotografia, Trilha Sonora Original, Canção Original por City of Stars e Direção de Arte, mas perdeu Melhor Filme, Roteiro Original e Ator, entre outras categorias.



