Pôster de O Auto da Compadecida

Crítica: O Auto da Compadecida

2000

4,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Guel Arraes
Roteiro
Adriana Falcão, João Falcão, Guel Arraes
Elenco
Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Marco Nanini, Denise Fraga, Diogo Vilela
Gêneros
Comédia, Drama
Ano
2000
Duração
1h44
País
Brasil
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de O Auto da Compadecida
Imagem: divulgação

O Auto da Compadecida: Guel Arraes transforma Suassuna em festa popular irresistível

SINOPSENo sertão da Paraíba, os amigos João Grilo e Chicó sobrevivem à base de esperteza, mentiras e pequenos golpes aplicados em padeiros, padres e coronéis. Quando as trapaças saem do controle, as consequências de tantas artimanhas ganham proporções que vão muito além deste mundo.

Poucas obras traduzem tão bem o humor brasileiro quanto O Auto da Compadecida. Partindo da peça de Ariano Suassuna, Guel Arraes criou um filme que é, ao mesmo tempo, comédia picaresca, fábula religiosa e retrato afetuoso do sertão nordestino. Nascido de uma minissérie de televisão e remontado para o cinema, o longa carrega marcas dessa origem, mas compensa qualquer irregularidade com um elenco inspirado e uma energia popular que poucas produções nacionais conseguiram igualar.

Como Guel Arraes adaptou a peça de Ariano Suassuna?

Suassuna escreveu O Auto da Compadecida bebendo na literatura de cordel, nos autos medievais e na tradição oral nordestina, e Guel Arraes entende que essa matriz popular é o coração da obra. Em vez de engessar o texto em reverência teatral, o diretor acelera o ritmo, amplia a galeria de personagens e aposta numa linguagem visual de cores fortes e enquadramentos que lembram ilustrações de folheto. O resultado preserva o espírito de Suassuna sem soar como teatro filmado.

A adaptação assinada por Adriana Falcão, João Falcão e o próprio Guel Arraes acrescenta camadas românticas e subtramas que expandem o universo de Taperoá, dando espaço para personagens como Rosinha e o cabo Setenta. Nem todas as adições têm o mesmo peso, mas o roteiro mantém a estrutura de causos encadeados que faz a graça do original. Cada mentira de João Grilo puxa outra, e o espectador acompanha a bola de neve com o prazer de quem ouve uma boa história contada na varanda.

Matheus Nachtergaele e Selton Mello criaram uma dupla histórica

É impossível pensar no filme sem a parceria entre Matheus Nachtergaele e Selton Mello. Nachtergaele faz de João Grilo um malandro magro, nervoso e de raciocínio veloz, cuja esperteza nasce da fome e da necessidade. Há crítica social embutida em cada golpe, e o ator sabe equilibrar o riso com uma melancolia discreta. Selton Mello, como Chicó, entrega o contraponto ideal: medroso, sonhador e mentiroso compulsivo, com bordões que atravessaram gerações e entraram de vez no vocabulário brasileiro.

O elenco de apoio é um desfile de talentos. Diogo Vilela e Denise Fraga roubam cenas como o padeiro e sua mulher infiel, Rogério Cardoso diverte como o padre interesseiro, Lima Duarte compõe um bispo deliciosamente vaidoso e Marco Nanini aparece em grande forma como o temido cangaceiro Severino. Fernanda Montenegro, no papel da Compadecida, traz uma presença serena e espirituosa que redefine o tom do filme. É raro ver tantos atores tão à vontade num mesmo projeto, e essa alegria contagia a tela.

A origem televisiva é o principal ponto fraco do filme

O Auto da Compadecida chegou aos cinemas depois de ser exibido como minissérie na televisão, e a remontagem deixa cicatrizes. Algumas transições são abruptas, certos núcleos parecem resumidos às pressas e a estrutura em episódios às vezes quebra o fluxo dramático. A fotografia, embora colorida e expressiva, por vezes denuncia a escala televisiva, com enquadramentos mais funcionais do que propriamente cinematográficos. Quem procura um filme formalmente redondo vai perceber essas costuras com facilidade.

Ainda assim, é notável como o carisma da narrativa supera os problemas técnicos. A trilha, ancorada em sonoridades nordestinas, reforça o clima de cordel e ajuda a costurar os episódios. E a sequência final, que não convém detalhar, é um dos momentos mais inspirados do cinema brasileiro da retomada: mistura teologia popular, comédia e emoção genuína com uma desenvoltura que só uma obra muito bem compreendida pelos seus realizadores consegue alcançar.

Vale a pena assistir O Auto da Compadecida?

Vale muito. Para o público brasileiro, o filme funciona quase como patrimônio afetivo: frases de Chicó e João Grilo circulam até hoje em conversas, memes e salas de aula. Para quem nunca viu, é uma excelente porta de entrada para o universo de Ariano Suassuna e para uma vertente de humor genuinamente nacional, que ri da desigualdade, da hipocrisia religiosa e da ganância sem perder a ternura pelos seus personagens.

A nota 4 reflete esse equilíbrio entre brilho e irregularidade. Como comédia, interpretação e retrato cultural, o longa está entre os melhores já feitos no país; como peça de linguagem cinematográfica, carrega as limitações de ter nascido para a televisão. Nada disso impede que seja revisto com prazer a cada nova sessão — e que continue apresentando o sertão de Suassuna a novas gerações de espectadores com a mesma graça de sempre.

Pontos fortes

  • Dupla Matheus Nachtergaele e Selton Mello em estado de graça
  • Humor popular com crítica social afiada
  • Elenco de apoio recheado de grandes nomes

Pontos fracos

  • Transições abruptas herdadas da minissérie
  • Linguagem visual por vezes mais televisiva que cinematográfica

Veredito: 4,0/5

★★★★★

O Auto da Compadecida é um clássico do humor brasileiro que transforma o texto de Ariano Suassuna em festa popular. As marcas da origem televisiva aparecem, mas o elenco e o coração da história compensam. Nota 4 de 5.

Quer assistir filmes como O Auto da Compadecida?

Chame no WhatsApp e venha assistir aqui.

Venha assistir aqui

Perguntas frequentes sobre O Auto da Compadecida

O Auto da Compadecida é baseado em livro?

O filme é baseado na peça de teatro O Auto da Compadecida, escrita por Ariano Suassuna na década de 1950. A obra mistura literatura de cordel, autos religiosos de tradição medieval e cultura popular nordestina, e se tornou um dos textos mais encenados do teatro brasileiro.

Onde se passa O Auto da Compadecida?

A história se passa em Taperoá, cidade do sertão da Paraíba que aparece em várias obras de Ariano Suassuna. As filmagens foram realizadas em Cabaceiras, também na Paraíba, município que ficou conhecido por receber diversas produções de cinema e televisão.

O Auto da Compadecida tem continuação?

Sim. O Auto da Compadecida 2 chegou aos cinemas brasileiros em dezembro de 2024, com direção de Guel Arraes e Flávia Lacerda. Matheus Nachtergaele e Selton Mello voltaram a interpretar João Grilo e Chicó, mais de duas décadas depois do primeiro filme.

Venha assistir aqui