
A Viagem de Chihiro: a obra-prima de Hayao Miyazaki sobre crescer num mundo estranho
Há filmes que entretêm, filmes que emocionam e filmes que parecem ampliar a maneira como enxergamos o mundo. A Viagem de Chihiro pertence a esta última categoria. A obra-prima de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli combina fantasia, folclore japonês e uma delicada história de amadurecimento com uma imaginação visual sem paralelo. Mais de duas décadas depois, continua sendo uma experiência tão encantadora para crianças quanto profunda para adultos que se permitem embarcar nela.
Por que A Viagem de Chihiro é considerada uma obra-prima?
O que torna o filme tão especial é a forma como Miyazaki constrói um universo completo sem jamais explicá-lo em excesso. A casa de banhos de Yubaba tem regras, hierarquias, rotinas e personagens próprios, e o espectador as aprende junto com Chihiro, observando. Deuses do rio, um espírito de rabanete, fuligens que carregam carvão e o misterioso Sem-Rosto convivem num mundo que soa ao mesmo tempo estranho e familiar, como um sonho que faz todo o sentido enquanto dura.
Por trás da fantasia há uma história de amadurecimento contada com rara sensibilidade. Chihiro começa o filme mimada, medrosa e emburrada, e cresce não por meio de grandes batalhas, mas de trabalho, gentileza e coragem cotidiana. Miyazaki também tece comentários sobre consumismo, ganância, poluição e perda de identidade — a questão do nome é central na trama — sem transformar o filme em sermão. A mensagem nasce das imagens e das ações dos personagens, nunca de discursos prontos.
A animação do Studio Ghibli em seu auge
Visualmente, A Viagem de Chihiro é um assombro. A animação tradicional, predominantemente desenhada à mão, tem uma riqueza de detalhes que recompensa cada nova sessão: o vapor que sobe das banheiras, a comida que brilha nos balcões, a arquitetura que mistura elementos japoneses e ocidentais. Miyazaki tem um talento único para os momentos de pausa, quando a narrativa respira e o espectador simplesmente contempla. A célebre viagem de trem sobre a água é um dos trechos mais serenos e bonitos da história do cinema.
O desenho dos personagens é igualmente memorável. Yubaba, com sua cabeça desproporcional e joias exageradas, é ao mesmo tempo ameaçadora e cômica. Kamaji, o velho de muitos braços que comanda as caldeiras, é uma das criações mais adoráveis do estúdio. E Haku, o garoto que ajuda Chihiro, carrega um mistério que dá à história uma camada extra de melancolia. Ninguém ali é totalmente bom ou mau, e essa complexidade moral é rara em animações que também se dirigem ao público infantil.
A trilha de Joe Hisaishi e o elenco de vozes elevam a experiência
A música de Joe Hisaishi, parceiro histórico de Miyazaki, é parte inseparável da experiência. O tema ao piano que acompanha Chihiro tem uma melancolia luminosa que traduz a sensação de perder a infância e ganhar algo em troca. Em outros momentos, a trilha cresce em arranjos orquestrais que ampliam a escala do mundo espiritual. Hisaishi sabe quando preencher a cena e quando recuar, deixando que o silêncio e os sons ambientes façam o trabalho emocional.
No elenco de vozes original, Rumi Hiiragi dá a Chihiro uma naturalidade preciosa, com a voz hesitante de uma criança de verdade, longe dos maneirismos comuns em animações. Mari Natsuki compõe uma Yubaba imponente e teatral, Miyu Irino empresta serenidade a Haku e Bunta Sugawara dá a Kamaji um tom rabugento e afetuoso. Para quem puder, vale assistir com o áudio original legendado; a versão dublada é uma boa alternativa para os pequenos, mas a japonesa preserva nuances importantes das interpretações.
Vale a pena assistir A Viagem de Chihiro?
É daqueles filmes que todo mundo deveria ver pelo menos uma vez. A Viagem de Chihiro venceu o Oscar de Melhor Filme de Animação e dividiu o Urso de Ouro do Festival de Berlim, feito raríssimo para um longa animado, e por muito tempo foi a maior bilheteria da história do Japão. Mas nenhum prêmio ou recorde dá conta da experiência de se perder naquele mundo pela primeira vez, ou de redescobri-lo anos depois com outros olhos.
A nota máxima é merecida por um conjunto em que tudo funciona: roteiro, direção, animação, música e vozes trabalham em perfeita sintonia. Crianças muito pequenas podem estranhar certos momentos sombrios ou o ritmo contemplativo, mas, a partir de uns oito ou nove anos, o filme costuma encantar sem ressalvas. Para adultos, é uma obra que fala de identidade, trabalho e memória com uma profundidade que poucos filmes, animados ou não, conseguem alcançar.
Pontos fortes
- Universo fantástico riquíssimo e original
- Animação desenhada à mão de beleza rara
- Trilha de Joe Hisaishi inesquecível
Pontos fracos
- Momentos sombrios podem assustar crianças pequenas
- Ritmo contemplativo exige paciência de parte do público
Veredito: 5,0/5
★★★★★A Viagem de Chihiro é uma obra-prima absoluta da animação e do cinema: imaginativa, comovente e visualmente deslumbrante. Hayao Miyazaki criou um clássico que atravessa gerações. Nota 5 de 5.
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Perguntas frequentes sobre A Viagem de Chihiro
A Viagem de Chihiro ganhou Oscar?
Sim. O filme venceu o Oscar de Melhor Filme de Animação na cerimônia de 2003, tornando-se a primeira animação japonesa a conquistar a estatueta. Antes disso, já havia dividido o Urso de Ouro, prêmio principal do Festival de Berlim de 2002.
Quem dirigiu A Viagem de Chihiro?
O filme foi escrito e dirigido por Hayao Miyazaki, cofundador do Studio Ghibli e autor de clássicos como Meu Amigo Totoro e Princesa Mononoke. A trilha sonora é de Joe Hisaishi, compositor que trabalha com o diretor desde a década de 1980.
Qual é o nome original de A Viagem de Chihiro?
O título original em japonês é Sen to Chihiro no Kamikakushi. Kamikakushi se refere, no folclore japonês, ao sumiço de pessoas supostamente levadas por espíritos. Em inglês, o filme ficou conhecido internacionalmente como Spirited Away.



