
Homem-Aranha no Aranhaverso reinventa a animação e devolve a alegria ao herói
Homem-Aranha no Aranhaverso chegou em 2018 como a enésima versão de um herói que já tinha tido três atores em dezesseis anos, e saiu como o melhor filme do personagem. A produção da Sony Pictures Animation reinventou a estética do longa animado, transformou Miles Morales em protagonista de carne e osso e provou que uma história de origem ainda pode emocionar quando é contada com personalidade. É espetáculo visual e drama familiar na mesma medida, e raramente erra a mão.
Por que a animação do Aranhaverso parece um quadrinho vivo?
A primeira coisa que salta aos olhos é que o filme não se parece com nada que a animação em computador tinha produzido até então. A equipe combinou modelos 3D com acabamento 2D, retículas de impressão, contornos a nanquim, balões de pensamento e onomatopeias desenhadas na tela. Em vez de desfoque de movimento, a imagem usa aberração cromática, aquele desalinhamento de cores das impressões baratas, e a animação é feita em menos quadros por segundo em momentos escolhidos, criando um ritmo cadenciado que lembra o folhear de páginas. O resultado é um quadrinho em movimento, não um desenho tentando parecer real.
A ousadia maior é dar a cada Homem-Aranha de outra dimensão um estilo próprio. O Aranha Noir, dublado por Nicolas Cage, existe em preto e branco mesmo em cenas coloridas; Peni Parker vem do anime, com olhos enormes e traços finos; o Porco-Aranha é um desenho animado clássico, com física de cartum e martelo saído do nada. Os três convivem no mesmo quadro sem que a mistura pareça gambiarra, e a direção de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman transforma essa colisão de linguagens em piada e em tese ao mesmo tempo: qualquer um pode usar a máscara.
Miles Morales é o melhor protagonista que o herói já teve
Por trás do fogo de artifício visual há um roteiro sólido de Phil Lord e Rodney Rothman. Miles, com a voz de Shameik Moore, é um adolescente do Brooklyn que acaba de entrar em um colégio de elite, se sente deslocado e ainda não sabe quem quer ser. O filme investe tempo na família: o pai policial, vivido por Brian Tyree Henry, e o tio Aaron, com a voz de Mahershala Ali, representam dois caminhos possíveis, e a relação de Miles com cada um deles é tratada com uma delicadeza incomum em filmes de super-herói de qualquer estúdio.
O contraponto é Peter B. Parker, um Homem-Aranha de meia-idade, barrigudo e divorciado que Jake Johnson transforma no melhor alívio cômico da franquia e, ao mesmo tempo, em um mentor relutante com algo real a aprender. Hailee Steinfeld dá a Gwen Stacy segurança e melancolia na medida. A cena em que Miles finalmente assume o manto, com a câmera invertida e a cidade se abrindo abaixo dele, é o tipo de momento que justifica um filme inteiro e que funciona porque o roteiro construiu cada passo até ali com paciência.
Ritmo, vilão e trilha: o que impede a nota máxima?
Os defeitos são poucos, mas existem. O ritmo é frenético do início ao fim, e o terceiro ato empilha tanta informação visual que alguns espectadores saem do cinema com a sensação de ter sido atropelados. O Rei do Crime, com a voz de Liev Schreiber, tem motivação forte e desenho impressionante, um bloco de concreto com rosto, mas é o Prowler, muito mais interessante, que fica com pouco tempo de tela. Há também um excesso de personagens no último ato, e nem todos recebem o espaço que mereciam.
A trilha de Daniel Pemberton mistura orquestra, scratch de toca-discos e sintetizadores sujos, e a canção Sunflower, de Post Malone e Swae Lee, funciona como tema de Miles sem parecer inserção comercial. A montagem de Robert Fisher Jr. acompanha a velocidade do visual e sabe quando parar, como na conversa entre Miles e o pai através de uma porta fechada, uma das cenas mais bonitas do gênero. São essas pausas que seguram o filme no chão e evitam que a técnica engula a história que está sendo contada.
Vale a pena assistir Homem-Aranha no Aranhaverso?
Vale, e para qualquer idade. Homem-Aranha no Aranhaverso é ao mesmo tempo o filme mais inventivo visualmente do gênero e uma das histórias de amadurecimento mais bem contadas da animação recente. Não exige conhecimento prévio, brinca com a própria repetição da origem do herói e emociona sem chantagem. O Oscar de Melhor Animação, vencido contra concorrentes de estúdios bem maiores, foi apenas o reconhecimento do óbvio para quem viu o filme no cinema.
Quem se incomoda com montagem acelerada e excesso de estímulo visual pode sentir cansaço no final, e o vilão principal fica aquém dos coadjuvantes. São ressalvas pequenas diante do que o filme entrega em invenção, humor e emoção, e nenhuma delas atrapalha a experiência de quem chega sem expectativas. Nota 4,5 de 5: uma animação que mudou a estética da indústria e, mais importante, que entende por que o Homem-Aranha importa para tanta gente de gerações diferentes.
Pontos fortes
- Estética inédita que mistura 3D e linguagem de quadrinhos
- Miles Morales e sua família têm peso dramático real
- Humor afiado sem sabotar a emoção
Pontos fracos
- Terceiro ato visualmente exaustivo
- Rei do Crime menos interessante que o Prowler
Veredito: 4,5/5
★★★★★Homem-Aranha no Aranhaverso reinventou a animação de super-heróis e entregou a melhor história de origem do personagem. Inventivo, engraçado e emocionante, com falhas mínimas de ritmo. Nota 4,5 de 5.
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Perguntas frequentes sobre Homem-Aranha no Aranhaverso
Homem-Aranha no Aranhaverso ganhou Oscar?
Sim. O filme venceu o Oscar de Melhor Animação na cerimônia de 2019, superando produções de estúdios maiores, e também levou o Globo de Ouro e o BAFTA na mesma categoria. Foi a primeira vez que um longa da Sony Pictures Animation conquistou a estatueta.
Precisa ver outros filmes do Homem-Aranha antes do Aranhaverso?
Não. O filme é independente dos longas em live-action e conta a própria história de origem de Miles Morales do zero. Conhecer as versões anteriores do herói enriquece as piadas e referências, mas o roteiro explica tudo o que é necessário e funciona perfeitamente como porta de entrada.
Homem-Aranha no Aranhaverso tem continuação?
Sim. Homem-Aranha: Através do Aranhaverso foi lançado em 2023, continua a história de Miles e Gwen e termina em suspense. Um terceiro capítulo, que encerra a trilogia, está em produção e já foi anunciado pelo estúdio, com Miles Morales novamente no centro da trama.



