
Parasita: a obra-prima de Bong Joon-ho que transforma luta de classes em suspense perfeito
Há filmes bons, filmes importantes e filmes que parecem ter sido construídos por um relojoeiro. Parasita pertence à terceira categoria. Bong Joon-ho, que já havia misturado gêneros com talento em trabalhos anteriores, atinge aqui um grau de controle que beira o assustador: cada cena, cada objeto de cena e cada degrau de escada carrega significado sem que o filme precise explicar nada. É comédia, é suspense, é tragédia, e nenhuma dessas camadas enfraquece a outra. Uma obra-prima no sentido mais literal do termo.
Como Bong Joon-ho usa a arquitetura para falar de classe social?
A casa dos Park e o porão dos Kim são os dois verdadeiros protagonistas de Parasita. A mansão, projetada para o filme com linhas retas, vidro e um jardim que parece uma pintura, é toda luz natural e espaço vazio. O semiporão dos Kim tem uma janela na altura da calçada por onde entram bêbados urinando e produtos de dedetização. Entre os dois mundos existem escadas, sempre escadas, e a câmera registra cada subida e descida como um movimento na hierarquia social. Não é metáfora sutil, mas é metáfora executada com elegância rara.
O que torna isso extraordinário é que a geografia nunca é apenas simbólica: ela comanda a ação. O suspense do segundo ato depende de onde cada personagem está dentro da casa, de quem pode ver quem, de quais portas estão fechadas. A direção de arte de Lee Ha-jun e a fotografia de Hong Kyung-pyo trabalham juntas para que o público entenda o espaço de forma intuitiva e, assim, sinta a tensão antes mesmo de qualquer ameaça aparecer. Quando a chuva chega, a mesma água que é espetáculo para os ricos vira catástrofe para os pobres, e o filme não precisa dizer uma palavra sobre isso.
O roteiro muda de gênero sem perder o controle
A primeira hora de Parasita é uma comédia de golpistas quase leve. Os Kim são espertos, carismáticos e, convenhamos, bastante simpáticos, e torcemos por cada etapa da infiltração. A montagem de Yang Jin-mo transforma a sequência em que a família ensaia suas mentiras em um número quase musical. Até que uma campainha toca em uma noite de tempestade e o filme vira outra coisa. A virada é tão bem preparada que, em retrospecto, todas as pistas estavam ali; na hora, porém, o chão simplesmente some.
O roteiro de Bong e Han Jin-won, premiado com o Oscar de melhor roteiro original, nunca trata os ricos como vilões nem os pobres como santos. Os Park são gentis, distraídos, incapazes de perceber o mundo fora da própria bolha; a crueldade deles é a indiferença, resumida em uma observação sobre cheiro que se torna o ponto nevrálgico da história. Essa recusa ao maniqueísmo é o que dá peso ao desfecho, e é o que diferencia Parasita de tantos filmes que abordam desigualdade com a sutileza de um panfleto.
Song Kang-ho e o elenco: atuações que sustentam o equilíbrio
Song Kang-ho, colaborador habitual de Bong, faz do patriarca Ki-taek um homem cansado que oscila entre a malandragem e uma dignidade ferida. Seu rosto nas cenas finais carrega todo o filme. Park So-dam, como a filha Ki-jung, é a mais fria e eficiente dos golpistas, e Choi Woo-shik dá ao filho Ki-woo uma ambição ingênua que o torna o personagem mais trágico. Já Cho Yeo-jeong constrói a patroa Yeon-kyo como uma mulher simples no pior sentido, crédula e encantadora, sem jamais transformá-la em piada.
Lee Jung-eun, como a governanta Moon-gwang, merece menção especial: sua personagem é a dobradiça do filme, e a atriz percorre do cômico ao desesperado em poucos minutos de tela com uma precisão impressionante. O elenco inteiro funciona como um conjunto, o que é essencial para um filme sobre famílias que agem como organismos. Não há atuação que grite por atenção, e justamente por isso cada gesto conta. A trilha de Jung Jae-il, com seus arranjos barrocos para piano e cordas, pontua essa coreografia sem nunca sublinhar demais a emoção.
Vale a pena assistir Parasita?
Parasita é um daqueles raros casos em que o consenso está certo. A Palma de Ouro em Cannes e os quatro Oscars, incluindo o inédito prêmio de melhor filme para uma produção em língua não inglesa, não foram exagero de temporada de premiações: trata-se de um filme que funciona como entretenimento puro e como ensaio sobre desigualdade ao mesmo tempo, sem que uma dimensão diminua a outra. É cinema que respeita a inteligência do público e, ainda assim, agarra qualquer espectador.
Dou a nota máxima com tranquilidade porque não consigo apontar uma cena que sobre ou falte. O ritmo, o humor, a tensão, as atuações e a direção de arte estão em perfeito alinhamento, e cada revisão revela um detalhe novo, uma pedra, uma linha de diálogo, um enquadramento que antecipa o que virá. Para o público brasileiro, a história ressoa com força particular, porque a distância entre o porão e a mansão é parte da nossa paisagem cotidiana. Assista sem ler nada sobre a trama. Depois, assista de novo. Nota 5.
Pontos fortes
- Roteiro de precisão absoluta que troca de gênero sem tropeçar
- Direção de arte e fotografia a serviço da narrativa
- Elenco em perfeita sintonia, com Song Kang-ho em destaque
Pontos fracos
- Quem busca realismo puro pode estranhar a virada do segundo ato
- O simbolismo é explícito para alguns gostos
Veredito: 5,0/5
★★★★★Parasita é o filme mais completo da última década: divertido, tenso, inteligente e devastador. Bong Joon-ho dirige com controle total e entrega uma obra que recompensa cada revisão. Nota 5, sem ressalvas.
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Perguntas frequentes sobre Parasita
Por que Parasita ganhou o Oscar de melhor filme?
Parasita venceu quatro Oscars em 2020: melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional. Foi o primeiro longa em língua não inglesa a levar o prêmio principal. O reconhecimento veio pela combinação rara de domínio técnico, roteiro original e tema universal sobre desigualdade social, além da forte campanha após a Palma de Ouro.
Qual é o significado do título Parasita?
O título é deliberadamente ambíguo. Pode se referir à família pobre que se infiltra na casa rica, mas também aos ricos, que dependem do trabalho alheio para tudo. Bong Joon-ho explora essa dupla leitura ao longo do filme, sugerindo que, num sistema desigual, todos vivem de alguma forma às custas de alguém.
Parasita tem cenas de terror?
Não é um filme de terror, mas a segunda metade tem momentos de suspense intenso e violência. A classificação indicativa no Brasil é 16 anos. O tom começa como comédia e escurece gradualmente, então espectadores sensíveis devem saber que a tensão cresce bastante a partir da metade da história.



