Pôster de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Crítica: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Everything Everywhere All at Once · 2022

4,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Daniel Kwan e Daniel Scheinert
Roteiro
Daniel Kwan, Daniel Scheinert
Elenco
Michelle Yeoh, Ke Huy Quan, Stephanie Hsu, Jamie Lee Curtis, James Hong
Gêneros
Ficção Científica, Comédia, Drama, Ação
Ano
2022
Duração
2h19
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Imagem: divulgação

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo: caos criativo com coração, mas que cansa

SINOPSEEvelyn Wang administra uma lavanderia à beira da falência, enfrenta uma auditoria fiscal e vê o casamento e a relação com a filha se desgastarem. No meio de uma reunião com a fiscal, uma versão alternativa do marido a recruta para uma guerra entre universos. Para sobreviver, Evelyn precisa acessar habilidades de todas as vidas que poderia ter vivido.

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é o raro filme que parece ter sido feito sem freio e, ainda assim, com um propósito emocional claro. Daniel Kwan e Daniel Scheinert pegam a ideia de multiverso, desgastada pelos blockbusters, e a devolvem como metáfora para arrependimento, imigração e a distância entre mãe e filha. O resultado é engraçado, tocante e muitas vezes exaustivo. Sete Oscars depois, vale perguntar se a ambição sempre se converte em cinema de qualidade.

Os Daniels transformam o multiverso em drama de família

A premissa poderia render apenas uma comédia maluca, mas o roteiro usa cada salto entre universos para falar da vida que Evelyn Wang não viveu. A lavanderia falida, o marido que ela trata com desdém, a filha que ela não consegue aceitar e o pai idoso que nunca a aprovou: tudo o que é problema no mundo real se desdobra em versões alternativas, e o filme sugere que a tragédia não está nas escolhas erradas, mas em não enxergar o que se tem. É um uso do multiverso mais inteligente do que qualquer franquia conseguiu.

O que diferencia a abordagem dos Daniels é a escala: em vez de o destino do cosmos ser abstrato, ele passa pela mesa de uma auditora da Receita e por uma reunião de família que ninguém quer ter. A ameaça interdimensional nasce de uma relação quebrada entre mãe e filha, e a solução, sem entrar em detalhes, não é um golpe, mas um gesto. Essa inversão de prioridades é a melhor ideia do filme e o motivo de ele ter conquistado um público tão amplo, muito além dos fãs habituais de ficção científica.

Michelle Yeoh e Ke Huy Quan: o elenco é o verdadeiro efeito especial

Michelle Yeoh carrega o filme em dezenas de registros diferentes, da dona de lavanderia mal-humorada à estrela de cinema glamourosa, passando por uma versão com dedos de salsicha, e faz todas parecerem a mesma mulher. É uma performance física e emocional que coroou décadas de carreira e lhe deu o Oscar de Melhor Atriz. Ke Huy Quan, que havia abandonado a atuação por falta de oportunidades depois de ser a criança de Indiana Jones e Os Goonies, volta com um Waymond que muda de postura, voz e olhar entre universos e rouba cada cena em que aparece.

Jamie Lee Curtis, como a auditora Deirdre, abraça o ridículo e encontra humanidade em um personagem que começa como caricatura; o Oscar de Atriz Coadjuvante foi tanto por este filme quanto pela carreira. Stephanie Hsu, como Joy, tem a tarefa mais difícil, equilibrar a filha magoada e a antagonista cósmica, e entrega os dois lados com convicção. James Hong, já nonagenário, dá ao avô uma presença que se adapta a cada mundo. É um conjunto raro, em que a direção de atores importa tanto quanto o malabarismo técnico.

Montagem frenética e humor escatológico: onde o filme perde fôlego

A montagem de Paul Rogers, premiada com o Oscar, é um feito técnico: cortes em fração de segundo entre universos, mudanças de formato e ritmo de videoclipe que nunca deixam o espectador perdido quanto ao essencial. O problema é que o filme não sabe quando parar. Aos 139 minutos, a segunda metade repete a estrutura da primeira, com mais um salto, mais uma luta, mais uma piada, e a emoção que deveria crescer acaba diluída. Há pelo menos vinte minutos que poderiam sair sem prejuízo, e o clímax se estende por mais tempo do que a ideia comporta.

O humor escatológico também divide. As piadas com troféus usados de maneira imprópria e os dedos de salsicha funcionam como choque na primeira vez, mas o roteiro insiste neles como se fossem a assinatura do filme, e para parte do público isso corrói a seriedade do drama. A fotografia de Larkin Seiple e a trilha de Son Lux merecem crédito por dar identidade a cada universo, especialmente o das pedras e o da estrela de cinema, filmado com uma elegância que o resto do filme não busca. Quando o filme respira, é melhor do que quando grita.

Vale a pena assistir Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo?

Vale, e com a mente aberta. Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é um dos filmes mais originais do século, tem um elenco em estado de graça e consegue ser sobre algo que importa sem abandonar o absurdo. Quem se conectar com a relação entre Evelyn e Joy vai sair do cinema abalado, e a performance de Michelle Yeoh justifica a sessão sozinha. É cinema que arrisca de verdade, e isso ficou raro em produções com esse alcance de público.

Mas é preciso dizer o que a maioria evita: o filme é longo demais, repete as próprias ideias e confunde excesso com profundidade em vários trechos. O caos é a proposta, e a proposta tem um custo que nem todo espectador vai aceitar pagar. Nota 4 de 5: uma obra genuinamente especial que ficaria ainda melhor com vinte minutos a menos e um pouco mais de confiança na própria emoção, que é o que de fato sustenta tudo.

Pontos fortes

  • Michelle Yeoh e Ke Huy Quan em atuações premiadas
  • Multiverso usado como metáfora emocional, não como truque
  • Montagem e direção de arte inventivas

Pontos fracos

  • Segunda metade repetitiva e longa
  • Humor escatológico insiste além do necessário

Veredito: 4,0/5

★★★★★

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é inventivo, emocionante e exaustivo na mesma medida. O elenco e a ideia central sustentam o filme mesmo quando o excesso cobra seu preço. Nota 4 de 5.

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Perguntas frequentes sobre Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Quantos Oscars ganhou Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo?

Sete, em onze indicações, na cerimônia de 2023: Melhor Filme, Direção, Atriz para Michelle Yeoh, Ator Coadjuvante para Ke Huy Quan, Atriz Coadjuvante para Jamie Lee Curtis, Roteiro Original e Montagem. Foi o filme mais premiado da noite, e Yeoh se tornou a primeira atriz asiática a vencer na categoria principal.

Quem são os Daniels, diretores do filme?

Daniel Kwan e Daniel Scheinert, dupla americana que assina como Daniels. Eles começaram em videoclipes e dirigiram antes o longa Um Cadáver para Sobreviver, de 2016, com Daniel Radcliffe. Pelo multiverso de Evelyn, venceram os Oscars de Melhor Direção e Melhor Roteiro Original.

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é comédia ou drama?

É os dois, com ação e ficção científica por cima. O filme alterna humor absurdo, lutas coreografadas e um drama familiar sobre mãe e filha, muitas vezes na mesma cena. Quem espera apenas uma comédia pode se surpreender com o peso emocional da segunda metade, e vice-versa.

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