
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo: caos criativo com coração, mas que cansa
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é o raro filme que parece ter sido feito sem freio e, ainda assim, com um propósito emocional claro. Daniel Kwan e Daniel Scheinert pegam a ideia de multiverso, desgastada pelos blockbusters, e a devolvem como metáfora para arrependimento, imigração e a distância entre mãe e filha. O resultado é engraçado, tocante e muitas vezes exaustivo. Sete Oscars depois, vale perguntar se a ambição sempre se converte em cinema de qualidade.
Os Daniels transformam o multiverso em drama de família
A premissa poderia render apenas uma comédia maluca, mas o roteiro usa cada salto entre universos para falar da vida que Evelyn Wang não viveu. A lavanderia falida, o marido que ela trata com desdém, a filha que ela não consegue aceitar e o pai idoso que nunca a aprovou: tudo o que é problema no mundo real se desdobra em versões alternativas, e o filme sugere que a tragédia não está nas escolhas erradas, mas em não enxergar o que se tem. É um uso do multiverso mais inteligente do que qualquer franquia conseguiu.
O que diferencia a abordagem dos Daniels é a escala: em vez de o destino do cosmos ser abstrato, ele passa pela mesa de uma auditora da Receita e por uma reunião de família que ninguém quer ter. A ameaça interdimensional nasce de uma relação quebrada entre mãe e filha, e a solução, sem entrar em detalhes, não é um golpe, mas um gesto. Essa inversão de prioridades é a melhor ideia do filme e o motivo de ele ter conquistado um público tão amplo, muito além dos fãs habituais de ficção científica.
Michelle Yeoh e Ke Huy Quan: o elenco é o verdadeiro efeito especial
Michelle Yeoh carrega o filme em dezenas de registros diferentes, da dona de lavanderia mal-humorada à estrela de cinema glamourosa, passando por uma versão com dedos de salsicha, e faz todas parecerem a mesma mulher. É uma performance física e emocional que coroou décadas de carreira e lhe deu o Oscar de Melhor Atriz. Ke Huy Quan, que havia abandonado a atuação por falta de oportunidades depois de ser a criança de Indiana Jones e Os Goonies, volta com um Waymond que muda de postura, voz e olhar entre universos e rouba cada cena em que aparece.
Jamie Lee Curtis, como a auditora Deirdre, abraça o ridículo e encontra humanidade em um personagem que começa como caricatura; o Oscar de Atriz Coadjuvante foi tanto por este filme quanto pela carreira. Stephanie Hsu, como Joy, tem a tarefa mais difícil, equilibrar a filha magoada e a antagonista cósmica, e entrega os dois lados com convicção. James Hong, já nonagenário, dá ao avô uma presença que se adapta a cada mundo. É um conjunto raro, em que a direção de atores importa tanto quanto o malabarismo técnico.
Montagem frenética e humor escatológico: onde o filme perde fôlego
A montagem de Paul Rogers, premiada com o Oscar, é um feito técnico: cortes em fração de segundo entre universos, mudanças de formato e ritmo de videoclipe que nunca deixam o espectador perdido quanto ao essencial. O problema é que o filme não sabe quando parar. Aos 139 minutos, a segunda metade repete a estrutura da primeira, com mais um salto, mais uma luta, mais uma piada, e a emoção que deveria crescer acaba diluída. Há pelo menos vinte minutos que poderiam sair sem prejuízo, e o clímax se estende por mais tempo do que a ideia comporta.
O humor escatológico também divide. As piadas com troféus usados de maneira imprópria e os dedos de salsicha funcionam como choque na primeira vez, mas o roteiro insiste neles como se fossem a assinatura do filme, e para parte do público isso corrói a seriedade do drama. A fotografia de Larkin Seiple e a trilha de Son Lux merecem crédito por dar identidade a cada universo, especialmente o das pedras e o da estrela de cinema, filmado com uma elegância que o resto do filme não busca. Quando o filme respira, é melhor do que quando grita.
Vale a pena assistir Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo?
Vale, e com a mente aberta. Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é um dos filmes mais originais do século, tem um elenco em estado de graça e consegue ser sobre algo que importa sem abandonar o absurdo. Quem se conectar com a relação entre Evelyn e Joy vai sair do cinema abalado, e a performance de Michelle Yeoh justifica a sessão sozinha. É cinema que arrisca de verdade, e isso ficou raro em produções com esse alcance de público.
Mas é preciso dizer o que a maioria evita: o filme é longo demais, repete as próprias ideias e confunde excesso com profundidade em vários trechos. O caos é a proposta, e a proposta tem um custo que nem todo espectador vai aceitar pagar. Nota 4 de 5: uma obra genuinamente especial que ficaria ainda melhor com vinte minutos a menos e um pouco mais de confiança na própria emoção, que é o que de fato sustenta tudo.
Pontos fortes
- Michelle Yeoh e Ke Huy Quan em atuações premiadas
- Multiverso usado como metáfora emocional, não como truque
- Montagem e direção de arte inventivas
Pontos fracos
- Segunda metade repetitiva e longa
- Humor escatológico insiste além do necessário
Veredito: 4,0/5
★★★★★Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é inventivo, emocionante e exaustivo na mesma medida. O elenco e a ideia central sustentam o filme mesmo quando o excesso cobra seu preço. Nota 4 de 5.
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Perguntas frequentes sobre Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Quantos Oscars ganhou Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo?
Sete, em onze indicações, na cerimônia de 2023: Melhor Filme, Direção, Atriz para Michelle Yeoh, Ator Coadjuvante para Ke Huy Quan, Atriz Coadjuvante para Jamie Lee Curtis, Roteiro Original e Montagem. Foi o filme mais premiado da noite, e Yeoh se tornou a primeira atriz asiática a vencer na categoria principal.
Quem são os Daniels, diretores do filme?
Daniel Kwan e Daniel Scheinert, dupla americana que assina como Daniels. Eles começaram em videoclipes e dirigiram antes o longa Um Cadáver para Sobreviver, de 2016, com Daniel Radcliffe. Pelo multiverso de Evelyn, venceram os Oscars de Melhor Direção e Melhor Roteiro Original.
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo é comédia ou drama?
É os dois, com ação e ficção científica por cima. O filme alterna humor absurdo, lutas coreografadas e um drama familiar sobre mãe e filha, muitas vezes na mesma cena. Quem espera apenas uma comédia pode se surpreender com o peso emocional da segunda metade, e vice-versa.



