Pôster de Matrix

Crítica: Matrix

The Matrix · 1999

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Lana Wachowski, Lilly Wachowski
Roteiro
Lana Wachowski, Lilly Wachowski
Elenco
Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Joe Pantoliano
Gêneros
Ficção Científica, Ação
Ano
1999
Duração
2h16
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Matrix
Imagem: divulgação

Matrix: a ficção científica que uniu filosofia, kung fu e efeitos visuais para redefinir o blockbuster

SINOPSEThomas Anderson é um programador de dia e hacker de noite, conhecido como Neo, atormentado pela sensação de que algo no mundo está errado. Quando é procurado por um grupo liderado pelo enigmático Morpheus, ele descobre uma verdade sobre a realidade que muda tudo o que acreditava. A partir daí, precisa decidir até onde está disposto a ir para entender o que é a Matrix.

Em março de 1999, um filme de ficção científica estrelado por um ator então considerado limitado e dirigido por duas cineastas com um único longa no currículo mudou o cinema de ação para sempre. Matrix é um daqueles casos raros em que a ambição conceitual e o espetáculo visual se alimentam mutuamente: a filosofia dá peso às lutas, e as lutas tornam a filosofia palatável. Revisto hoje, segue sendo um blockbuster modelo, ainda que o tempo tenha revelado algumas rachaduras na sua armadura de couro preto.

O bullet time ainda impressiona ou virou apenas um truque de época?

A câmera que gira ao redor de Neo enquanto ele se inclina para desviar de balas foi copiada, parodiada e esgotada por uma década de filmes e comerciais. Seria natural que o efeito tivesse perdido a força, mas não perdeu, e o motivo é simples: em Matrix, o bullet time não é enfeite, é narrativa. A técnica traduz visualmente a ideia de que o protagonista está começando a dobrar as regras de um mundo simulado. Cada vez que o tempo desacelera, entendemos que Neo está mais perto de compreender a natureza da realidade.

O mesmo vale para o restante da ação. As Wachowski trouxeram o coreógrafo Yuen Woo-ping e obrigaram o elenco a treinar artes marciais durante meses, e o resultado aparece em lutas filmadas em planos abertos, com os atores claramente executando os movimentos. A sequência do saguão, com a chuva de cartuchos caindo em câmera lenta, é uma aula de montagem e desenho de som, e os quatro Oscars técnicos do filme, incluindo efeitos visuais e edição, foram merecidos. Ação com clareza espacial, hoje, é raridade; aqui, é regra.

A filosofia do filme é profunda ou apenas vistosa?

Matrix pega emprestado de Platão, Descartes, Baudrillard, do budismo, do gnosticismo e dos cyberpunks, e não esconde as referências; um livro de Baudrillard aparece literalmente em cena. Críticos mais severos chamam isso de filosofia de camiseta, e há alguma verdade nisso. Mas o que importa não é a originalidade das ideias, e sim a eficácia com que o roteiro as transforma em dilema dramático. A escolha entre a pílula azul e a vermelha é simples e, justamente por isso, entrou para o vocabulário comum.

O mérito maior é a construção de um mundo que faz sentido interno. As regras da simulação são apresentadas gradualmente, por meio de cenas de treinamento que funcionam como tutoriais sem parecerem didáticas, e cada regra estabelecida será usada mais tarde. Essa disciplina de roteiro é o que separa Matrix de suas continuações e da maioria das imitações: ele nunca inventa uma solução na hora. Décadas depois, o filme também ganhou novas leituras, inclusive como alegoria de identidade e transformação, o que mostra que a estrutura comporta interpretações além da que ele apresenta na superfície.

Keanu Reeves, Fishburne e Weaving: o elenco certo para o tom certo

A suposta limitação de Keanu Reeves é, em Matrix, uma virtude. Neo precisa ser um homem desorientado, que aprende junto com a plateia, e a serenidade quase vazia do ator funciona como tela em branco para o espectador se projetar. Laurence Fishburne, por sua vez, faz de Morpheus um pregador de óculos espelhados, e sua dicção solene dá credibilidade a diálogos que, em outra boca, soariam ridículos. Carrie-Anne Moss constrói Trinity com economia: poucas falas, muita presença física, e a cena de abertura que ela protagoniza já define o padrão de ação do filme.

Hugo Weaving, como o Agente Smith, cria um dos grandes antagonistas do cinema de gênero. A fala arrastada, a repulsa pela humanidade que ele expressa no interrogatório de Morpheus e a progressiva perda de controle fazem dele mais do que um programa de segurança: é um ser preso no próprio sistema. Joe Pantoliano, no papel de Cypher, entrega a atuação mais humana do filme, um traidor cujas razões são compreensíveis. O elenco sabe que o material é sério e divertido ao mesmo tempo, e acerta o tom em todas as cenas.

Vale a pena assistir Matrix?

Matrix é um dos filmes mais importantes do fim do século XX e segue completamente assistível, o que não é pouco para um blockbuster que depende tanto de tecnologia. A fotografia de Bill Pope, com o filtro esverdeado dentro da simulação e o azul frio do mundo real, envelheceu melhor do que muitos efeitos digitais posteriores. A trilha de Don Davis, com seus metais em espelho, e a seleção de músicas eletrônicas e industriais completam uma identidade estética que definiu a virada do milênio.

Não dou a nota máxima porque o filme tem um terceiro ato que troca parte da sua inteligência por tiroteio e porque alguns diálogos expositivos, revistos hoje, soam mais pesados do que pareciam na época. Mas são ressalvas pequenas diante de uma obra que conseguiu ser popular e provocadora, que respeitou a inteligência do público e que criou imagens que continuam no imaginário coletivo. Para quem só conhece as referências, é hora de ver a fonte. Para quem já viu, vale notar como tudo foi plantado com cuidado. Nota 4,5.

Pontos fortes

  • Ação coreografada com clareza e efeitos que servem à história
  • Construção de mundo com regras coerentes
  • Elenco em sintonia com o tom, com Hugo Weaving brilhante

Pontos fracos

  • Terceiro ato mais convencional que o restante
  • Alguns diálogos expositivos pesados

Veredito: 4,5/5

★★★★★

Matrix é o blockbuster inteligente por excelência: ação revolucionária, mundo coerente e ideias que, mesmo emprestadas, viram drama de verdade. Pequenos excessos no desfecho não tiram seu lugar entre os essenciais. Nota 4,5.

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Perguntas frequentes sobre Matrix

Qual é a ordem para assistir aos filmes de Matrix?

A ordem de lançamento é a recomendada: Matrix (1999), Matrix Reloaded (2003), Matrix Revolutions (2003) e Matrix Resurrections (2021). Existe também a antologia animada Animatrix, de 2003, que complementa a mitologia e pode ser vista entre o primeiro e o segundo filme para aprofundar o universo.

O que significa a pílula vermelha e a pílula azul em Matrix?

No filme, Morpheus oferece a Neo duas opções: a pílula azul, que o faz esquecer tudo e seguir na ilusão confortável, e a vermelha, que revela a verdade dolorosa sobre a realidade. A metáfora representa a escolha entre ignorância tranquila e conhecimento difícil, e virou expressão popular.

Matrix ganhou Oscar?

Sim, Matrix venceu quatro Oscars em 2000, todos em categorias técnicas: melhor montagem, melhores efeitos visuais, melhor som e melhor edição de efeitos sonoros. Foi um reconhecimento ao impacto da técnica do bullet time e ao desenho de som do filme, que influenciaram o cinema de ação na década seguinte.

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