Pôster de Tropa de Elite

Crítica: Tropa de Elite

2007

4,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
José Padilha
Roteiro
Bráulio Mantovani, José Padilha, Rodrigo Pimentel
Elenco
Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Milhem Cortaz, Fernanda Machado, Maria Ribeiro
Gêneros
Ação, Crime, Drama
Ano
2007
Duração
1h55
País
Brasil
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Tropa de Elite
Imagem: divulgação

Tropa de Elite: o filme que dividiu o Brasil e transformou o Capitão Nascimento em ícone involuntário

SINOPSERio de Janeiro, 1997. Às vésperas da visita do Papa, o Capitão Nascimento, comandante de uma equipe do BOPE, precisa encontrar um substituto para poder sair da linha de frente e cuidar da família. Ao mesmo tempo, dois jovens aspirantes da Polícia Militar, Neto e Matias, descobrem a corrupção da corporação e começam a enxergar o batalhão de elite como única saída.

Tropa de Elite chegou aos cinemas já visto por milhões de pessoas, graças a um vazamento de cópia pirata que se tornou parte da sua lenda. Quando estreou oficialmente, em outubro de 2007, o país inteiro já discutia o Capitão Nascimento, e a discussão nunca terminou. José Padilha fez um filme de ação brutal, tecnicamente brilhante e moralmente ambíguo, que foi aplaudido por quem deveria se sentir denunciado e criticado por quem compartilhava de suas intenções. Esse curto-circuito é, ao mesmo tempo, sua força e seu problema.

Wagner Moura constrói o personagem mais discutido do cinema nacional

O Capitão Nascimento não funcionaria com outro ator. Wagner Moura dá ao personagem uma intensidade física que beira o colapso: o corpo tenso, os olhos vermelhos, os ataques de pânico que o roteiro espalha ao longo da trama. É um homem destruído pela própria função, e Moura nunca deixa isso virar autopiedade. A narração em off, agressiva e cheia de bordões, poderia transformá-lo em caricatura; em vez disso, o ator a usa como armadura de alguém que precisa acreditar no que diz para continuar de pé.

O problema é que a atuação é boa demais. Nascimento é tão carismático que grande parte do público o leu como herói, e não como o sintoma de um sistema falido que Padilha dizia querer retratar. O filme tenta evitar isso mostrando o custo humano da violência e a frieza dos métodos do batalhão, mas a narração em primeira pessoa coloca o espectador dentro da cabeça do capitão e cria identificação automática. Esse é o nó ético de Tropa de Elite, e não acho que o filme o desate com clareza. Ele prefere a ambiguidade, o que é legítimo, mas tem consequências.

A direção de Padilha e a montagem de Daniel Rezende: adrenalina com método

Vindo do documentário, José Padilha filma as operações policiais com uma câmera nervosa e próxima, sem a estilização pop que marcou outros filmes brasileiros de violência urbana. A fotografia de Lula Carvalho trabalha com luz disponível, tons sujos e muita escuridão, criando a sensação de que estamos dentro da operação, e não assistindo a ela. As sequências de incursão no morro têm uma tensão quase insuportável, construída pelo som, pelo silêncio e pela imprevisibilidade do que vai aparecer na próxima esquina.

Daniel Rezende, na montagem, alterna esse ritmo documental com cortes rápidos que seguem a lógica da narração, e o resultado é um filme que nunca para. A sequência do treinamento no BOPE, com sua crueldade sistemática e os gritos de ordem, é editada como um pesadelo em looping. Já as cenas da universidade, com os debates sobre Foucault e as ONGs, são o ponto fraco: funcionam como contraponto temático, mas são escritas com uma condescendência que trai a posição do filme. Padilha trata o debate intelectual com um desdém que empobrece a discussão que ele mesmo propõe.

O roteiro é denúncia ou apologia?

O texto de Bráulio Mantovani, Padilha e Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, é baseado em livro escrito por policiais e pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, e carrega a credibilidade de quem conhece o sistema por dentro. A primeira metade é um retrato devastador da corrupção na Polícia Militar: o esquema do caveirão, os acertos com o tráfico, a lavagem de dinheiro da oficina. Nesse trecho, Tropa de Elite é um filme claramente crítico, que mostra como a instituição corrompe até quem entra nela com boas intenções, como os aspirantes Neto e Matias.

A segunda metade, centrada na formação e nas operações do BOPE, é onde a leitura se complica. O batalhão é mostrado como incorruptível, e sua violência, como consequência lógica de um sistema que não oferece alternativa. A tortura aparece como método eficaz, e o filme não se posiciona de forma inequívoca contra ela. Pode-se argumentar que a ausência de julgamento é o ponto, que cabe ao espectador decidir. Mas, em um país onde a violência policial é problema histórico, essa neutralidade tem peso, e a maneira como o público abraçou Nascimento mostra que a ambiguidade foi lida de um jeito só.

Vale a pena assistir Tropa de Elite?

Vale, e é um filme necessário para entender o Brasil dos anos 2000 e o cinema que ele produziu. Como objeto de ação e tensão, Tropa de Elite é de primeira linha: direção segura, montagem precisa, elenco afiado, com destaque também para Caio Junqueira e André Ramiro, que dão aos aspirantes uma trajetória crível. O Urso de Ouro em Berlim, em 2008, foi um reconhecimento justo da força cinematográfica da obra, independentemente do debate que ela provoca.

A nota 4 reflete uma admiração com reservas. Tecnicamente e em termos de impacto cultural, é um dos filmes brasileiros mais importantes do século. Mas a condescendência com que trata seus contrapontos e a ambiguidade mal resolvida sobre a violência policial me impedem de colocá-lo no mesmo patamar de obras que enfrentam suas contradições de frente. Assista, discuta e, de preferência, veja também a continuação, que corrige parte dessas questões ao deslocar o foco para a política. É cinema que incomoda, e isso, por si só, já é raro.

Pontos fortes

  • Wagner Moura em atuação de intensidade absoluta
  • Direção e montagem de tensão constante
  • Retrato convincente da corrupção policial

Pontos fracos

  • Ambiguidade moral que resvala em apologia
  • Personagens universitários escritos com condescendência

Veredito: 4,0/5

★★★★★

Tropa de Elite é um filme tecnicamente brilhante e culturalmente incontornável, com um Wagner Moura devastador. Sua ambiguidade moral, porém, é mal resolvida e abre espaço para leituras que o próprio filme dizia combater. Nota 4.

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Perguntas frequentes sobre Tropa de Elite

Tropa de Elite é baseado em fatos reais?

O filme é inspirado no livro Elite da Tropa, escrito pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares e pelos ex-policiais André Batista e Rodrigo Pimentel, que relata experiências reais dentro do BOPE. Os personagens e a trama são ficcionais, mas situações como a corrupção na PM e o treinamento do batalhão têm base em depoimentos.

Tropa de Elite ganhou algum prêmio internacional?

Sim. O filme venceu o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim, em 2008, tornando-se o primeiro longa brasileiro a conquistar a honraria. A vitória gerou controvérsia na imprensa europeia por conta do debate sobre a representação da violência policial, mas consolidou a projeção internacional de José Padilha.

Por que Tropa de Elite vazou antes da estreia?

Uma cópia de trabalho do filme, ainda sem finalização, vazou e foi amplamente distribuída em DVDs piratas e na internet meses antes do lançamento oficial, em outubro de 2007. Estima-se que milhões de pessoas viram o filme antes do cinema, o que, paradoxalmente, ajudou a transformar a obra em fenômeno cultural.

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