
Cidade de Deus: a crônica da favela carioca que redefiniu o cinema brasileiro nos anos 2000
Poucos filmes brasileiros conseguiram mudar a régua do que a plateia espera de uma produção nacional. Cidade de Deus fez isso em 2002, com uma energia que parecia impossível para o cinema do país na época. Fernando Meirelles, ao lado da codiretora Kátia Lund, transformou o romance de Paulo Lins em um épico de rua que nunca pede licença. A sensação, ainda hoje, é de assistir a algo urgente, nervoso e tecnicamente impecável, mesmo com algumas escolhas que envelheceram.
Como a montagem de Daniel Rezende dita o ritmo do filme?
A primeira coisa que salta aos olhos em Cidade de Deus é a montagem. Daniel Rezende corta como quem está correndo da polícia: planos curtos, saltos temporais, congelamentos de imagem que apresentam personagens pelo apelido. A sequência inicial da galinha fugindo, que depois se revela um ponto de encontro entre passado e presente, já estabelece o pacto com o espectador. O filme vai andar para a frente e para trás sem avisar, e cabe a nós acompanhar. Isso poderia virar bagunça, mas a lógica narrativa é tão clara que a fragmentação funciona como estilo, não como ruído.
O mais impressionante é que essa velocidade não sacrifica a geografia emocional da história. Cada capítulo, do Trio Ternura à guerra entre Zé Pequeno e Cenoura, tem começo, meio e fim dentro da estrutura maior. Rezende recebeu indicação ao Oscar de melhor montagem, e é fácil entender o motivo: a edição aqui é autoral, quase um personagem. Ela organiza o caos para que o público nunca se perca, mesmo quando as décadas se sobrepõem e os meninos de ontem viram os matadores de hoje.
A fotografia de César Charlone é a alma visual do filme
César Charlone fotografa a Cidade de Deus como três lugares diferentes, porque ela realmente é. Nos anos 1960, a paleta é dourada, aberta, quase nostálgica: campinhos de futebol, casas baixas, horizonte visível. Nos anos 1970, as cores se saturam e a câmera fica mais inquieta. Já nos anos 1980, tudo é cinza, azulado, fechado, com becos onde a luz mal entra. Essa progressão cromática conta a decadência do lugar sem precisar de uma linha de diálogo, e é um dos trabalhos de direção de fotografia mais inteligentes do cinema brasileiro.
A câmera na mão, muitas vezes no meio da ação, cria uma sensação de reportagem que o filme explora com consciência. Não é um documentário, mas a textura granulada e os enquadramentos sujos dão credibilidade ao que vemos. A indicação ao Oscar de melhor fotografia, inédita para um brasileiro na categoria, reconheceu esse esforço. Charlone sabe quando parar e deixar a imagem respirar, como no plano do garoto Dadinho sorrindo depois do massacre do motel, um dos retratos mais assustadores da infância já filmados por aqui.
O elenco de não atores funciona ou expõe a fragilidade do roteiro?
A decisão de escalar jovens da própria comunidade e de favelas vizinhas, preparados em oficinas de atuação, é o coração do filme. Leandro Firmino constrói um Zé Pequeno que mistura carisma, insegurança e uma crueldade quase infantil, sem nunca cair na caricatura. Alexandre Rodrigues dá a Buscapé a passividade necessária de quem observa, enquanto Douglas Silva, ainda criança, rouba a primeira parte do filme como Dadinho. Há uma verdade nos corpos, nas gírias e no olhar que nenhum ator formado conseguiria imitar com a mesma naturalidade.
O preço dessa aposta aparece em algumas cenas de diálogo mais longas, onde a falta de experiência fica visível, e o roteiro de Bráulio Mantovani nem sempre socorre. A narração em off de Buscapé, por exemplo, às vezes explica o que a imagem já mostrou. Também é justo apontar que o filme tem uma relação ambígua com a violência que retrata: a estilização é tão sedutora que, em certos momentos, o espetáculo ameaça engolir a denúncia. É uma tensão que o próprio Meirelles reconheceu depois, e que faz parte da discussão sobre o legado da obra.
Vale a pena assistir Cidade de Deus?
Sem dúvida. Mais de vinte anos depois, Cidade de Deus continua sendo o filme brasileiro mais influente de sua geração, aquele que abriu portas para uma estética e para uma safra de atores que seguem ativos. As quatro indicações ao Oscar, incluindo direção, confirmaram o que a bilheteria já dizia: existia um público enorme para um cinema nacional vigoroso, pop e tecnicamente ambicioso. A trilha de Antônio Pinto e Ed Côrtes, misturando samba, funk e soul, ajuda a costurar as épocas com precisão.
Minha única ressalva é o excesso. O filme é tão apaixonado pelo próprio virtuosismo que, em alguns trechos, a forma passa por cima da reflexão. Mas isso é detalhe diante do conjunto. Para quem nunca viu, é uma experiência obrigatória para entender o cinema do país. Para quem já viu, vale uma revisita com atenção à progressão da fotografia e às atuações secundárias, como a de Matheus Nachtergaele e Seu Jorge, que dão peso à segunda metade. É um marco, com todos os méritos e contradições que a palavra carrega.
Pontos fortes
- Montagem e fotografia de nível mundial
- Elenco de não atores com naturalidade rara
- Estrutura em três décadas que nunca se perde
Pontos fracos
- Narração em off às vezes redundante
- Estilização que por vezes glamouriza a violência
Veredito: 4,5/5
★★★★★Cidade de Deus é um dos pilares do cinema brasileiro moderno, com uma energia técnica que ainda impressiona. As ressalvas sobre o excesso de estilo não diminuem a força do conjunto. Nota 4,5: quase perfeito, e indispensável.
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Perguntas frequentes sobre Cidade de Deus
Cidade de Deus é baseado em uma história real?
O filme adapta o romance de Paulo Lins, escritor que cresceu na Cidade de Deus e se baseou em fatos e personagens reais da comunidade para construir a narrativa. Vários acontecimentos têm inspiração em episódios verídicos, mas nomes, cronologia e situações foram dramatizados para o cinema.
Cidade de Deus ganhou algum Oscar?
Não ganhou, mas recebeu quatro indicações ao Oscar de 2004: melhor direção para Fernando Meirelles, roteiro adaptado para Bráulio Mantovani, fotografia para César Charlone e montagem para Daniel Rezende. Foi um feito raro para um filme falado em português e consolidou a projeção internacional da produção.
Quem são os atores de Cidade de Deus hoje?
Vários integrantes do elenco seguiram carreira. Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino e Douglas Silva continuaram atuando em cinema e televisão, enquanto Seu Jorge consolidou-se também como músico de projeção internacional e Alice Braga, que faz Angélica, construiu carreira em produções estrangeiras.



