Pôster de Cidade de Deus

Crítica: Cidade de Deus

2002

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Fernando Meirelles
Roteiro
Bráulio Mantovani
Elenco
Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino, Phellipe Haagensen, Douglas Silva, Matheus Nachtergaele, Seu Jorge
Gêneros
Crime, Drama
Ano
2002
Duração
2h10
País
Brasil
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Cidade de Deus
Imagem: divulgação

Cidade de Deus: a crônica da favela carioca que redefiniu o cinema brasileiro nos anos 2000

SINOPSEBuscapé é um garoto que cresce na Cidade de Deus, conjunto habitacional da zona oeste do Rio de Janeiro, sonhando em ser fotógrafo enquanto vê amigos de infância serem engolidos pelo tráfico. Ao longo de três décadas, o filme acompanha a ascensão de Zé Pequeno, um bandido obcecado por poder, e o modo como a violência vai se tornando a única moeda do lugar. Entre a câmera e a arma, Buscapé tenta encontrar uma saída.

Poucos filmes brasileiros conseguiram mudar a régua do que a plateia espera de uma produção nacional. Cidade de Deus fez isso em 2002, com uma energia que parecia impossível para o cinema do país na época. Fernando Meirelles, ao lado da codiretora Kátia Lund, transformou o romance de Paulo Lins em um épico de rua que nunca pede licença. A sensação, ainda hoje, é de assistir a algo urgente, nervoso e tecnicamente impecável, mesmo com algumas escolhas que envelheceram.

Como a montagem de Daniel Rezende dita o ritmo do filme?

A primeira coisa que salta aos olhos em Cidade de Deus é a montagem. Daniel Rezende corta como quem está correndo da polícia: planos curtos, saltos temporais, congelamentos de imagem que apresentam personagens pelo apelido. A sequência inicial da galinha fugindo, que depois se revela um ponto de encontro entre passado e presente, já estabelece o pacto com o espectador. O filme vai andar para a frente e para trás sem avisar, e cabe a nós acompanhar. Isso poderia virar bagunça, mas a lógica narrativa é tão clara que a fragmentação funciona como estilo, não como ruído.

O mais impressionante é que essa velocidade não sacrifica a geografia emocional da história. Cada capítulo, do Trio Ternura à guerra entre Zé Pequeno e Cenoura, tem começo, meio e fim dentro da estrutura maior. Rezende recebeu indicação ao Oscar de melhor montagem, e é fácil entender o motivo: a edição aqui é autoral, quase um personagem. Ela organiza o caos para que o público nunca se perca, mesmo quando as décadas se sobrepõem e os meninos de ontem viram os matadores de hoje.

A fotografia de César Charlone é a alma visual do filme

César Charlone fotografa a Cidade de Deus como três lugares diferentes, porque ela realmente é. Nos anos 1960, a paleta é dourada, aberta, quase nostálgica: campinhos de futebol, casas baixas, horizonte visível. Nos anos 1970, as cores se saturam e a câmera fica mais inquieta. Já nos anos 1980, tudo é cinza, azulado, fechado, com becos onde a luz mal entra. Essa progressão cromática conta a decadência do lugar sem precisar de uma linha de diálogo, e é um dos trabalhos de direção de fotografia mais inteligentes do cinema brasileiro.

A câmera na mão, muitas vezes no meio da ação, cria uma sensação de reportagem que o filme explora com consciência. Não é um documentário, mas a textura granulada e os enquadramentos sujos dão credibilidade ao que vemos. A indicação ao Oscar de melhor fotografia, inédita para um brasileiro na categoria, reconheceu esse esforço. Charlone sabe quando parar e deixar a imagem respirar, como no plano do garoto Dadinho sorrindo depois do massacre do motel, um dos retratos mais assustadores da infância já filmados por aqui.

O elenco de não atores funciona ou expõe a fragilidade do roteiro?

A decisão de escalar jovens da própria comunidade e de favelas vizinhas, preparados em oficinas de atuação, é o coração do filme. Leandro Firmino constrói um Zé Pequeno que mistura carisma, insegurança e uma crueldade quase infantil, sem nunca cair na caricatura. Alexandre Rodrigues dá a Buscapé a passividade necessária de quem observa, enquanto Douglas Silva, ainda criança, rouba a primeira parte do filme como Dadinho. Há uma verdade nos corpos, nas gírias e no olhar que nenhum ator formado conseguiria imitar com a mesma naturalidade.

O preço dessa aposta aparece em algumas cenas de diálogo mais longas, onde a falta de experiência fica visível, e o roteiro de Bráulio Mantovani nem sempre socorre. A narração em off de Buscapé, por exemplo, às vezes explica o que a imagem já mostrou. Também é justo apontar que o filme tem uma relação ambígua com a violência que retrata: a estilização é tão sedutora que, em certos momentos, o espetáculo ameaça engolir a denúncia. É uma tensão que o próprio Meirelles reconheceu depois, e que faz parte da discussão sobre o legado da obra.

Vale a pena assistir Cidade de Deus?

Sem dúvida. Mais de vinte anos depois, Cidade de Deus continua sendo o filme brasileiro mais influente de sua geração, aquele que abriu portas para uma estética e para uma safra de atores que seguem ativos. As quatro indicações ao Oscar, incluindo direção, confirmaram o que a bilheteria já dizia: existia um público enorme para um cinema nacional vigoroso, pop e tecnicamente ambicioso. A trilha de Antônio Pinto e Ed Côrtes, misturando samba, funk e soul, ajuda a costurar as épocas com precisão.

Minha única ressalva é o excesso. O filme é tão apaixonado pelo próprio virtuosismo que, em alguns trechos, a forma passa por cima da reflexão. Mas isso é detalhe diante do conjunto. Para quem nunca viu, é uma experiência obrigatória para entender o cinema do país. Para quem já viu, vale uma revisita com atenção à progressão da fotografia e às atuações secundárias, como a de Matheus Nachtergaele e Seu Jorge, que dão peso à segunda metade. É um marco, com todos os méritos e contradições que a palavra carrega.

Pontos fortes

  • Montagem e fotografia de nível mundial
  • Elenco de não atores com naturalidade rara
  • Estrutura em três décadas que nunca se perde

Pontos fracos

  • Narração em off às vezes redundante
  • Estilização que por vezes glamouriza a violência

Veredito: 4,5/5

★★★★★

Cidade de Deus é um dos pilares do cinema brasileiro moderno, com uma energia técnica que ainda impressiona. As ressalvas sobre o excesso de estilo não diminuem a força do conjunto. Nota 4,5: quase perfeito, e indispensável.

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Perguntas frequentes sobre Cidade de Deus

Cidade de Deus é baseado em uma história real?

O filme adapta o romance de Paulo Lins, escritor que cresceu na Cidade de Deus e se baseou em fatos e personagens reais da comunidade para construir a narrativa. Vários acontecimentos têm inspiração em episódios verídicos, mas nomes, cronologia e situações foram dramatizados para o cinema.

Cidade de Deus ganhou algum Oscar?

Não ganhou, mas recebeu quatro indicações ao Oscar de 2004: melhor direção para Fernando Meirelles, roteiro adaptado para Bráulio Mantovani, fotografia para César Charlone e montagem para Daniel Rezende. Foi um feito raro para um filme falado em português e consolidou a projeção internacional da produção.

Quem são os atores de Cidade de Deus hoje?

Vários integrantes do elenco seguiram carreira. Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino e Douglas Silva continuaram atuando em cinema e televisão, enquanto Seu Jorge consolidou-se também como músico de projeção internacional e Alice Braga, que faz Angélica, construiu carreira em produções estrangeiras.

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