Pôster de Os Bons Companheiros

Crítica: Os Bons Companheiros

Goodfellas · 1990

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Martin Scorsese
Roteiro
Nicholas Pileggi, Martin Scorsese
Elenco
Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino
Gêneros
Crime, Drama, Biografia
Ano
1990
Duração
2h25
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Os Bons Companheiros
Imagem: divulgação

Os Bons Companheiros: Scorsese filma a máfia como vício, e o espectador é quem fica dependente

SINOPSEDesde menino, Henry Hill sonhava em ser gângster, e no bairro italiano do Brooklyn dos anos 1950 isso significava trabalhar para o chefe local Paulie Cicero. Ao lado do veterano Jimmy Conway e do explosivo Tommy DeVito, Henry sobe na hierarquia do crime organizado ao longo de três décadas. Baseado na história real contada no livro de Nicholas Pileggi, o filme acompanha a ascensão e a conta que inevitavelmente chega.

Existe o filme de máfia antes de Os Bons Companheiros e o filme de máfia depois dele. Enquanto O Poderoso Chefão tratava o crime como tragédia operística, Martin Scorsese tratou como vício: sedutor, acelerado, viciante e, no fim, destrutivo. Narrado em primeira pessoa, montado como se tivesse pressa de viver e repleto de atuações que viraram referência, o filme completou mais de três décadas sem perder um grama de energia. É Scorsese no auge absoluto do controle.

Por que a narração de Henry Hill muda tudo?

A primeira frase do filme já define o pacto: Henry Hill nos conta que sempre quis ser gângster, e a partir daí somos cúmplices. A narração em off, adaptada do livro Wiseguy, de Nicholas Pileggi, não explica a trama, ela a seduz. Henry descreve roubos, propinas e assassinatos com o entusiasmo de quem lembra os melhores anos da vida, e Scorsese usa esse tom para colocar o espectador dentro da lógica do crime. Não julgamos porque o narrador não julga. Só mais tarde percebemos onde fomos parar.

A entrada de Karen, vivida por Lorraine Bracco, como segunda narradora é o golpe de mestre do roteiro. Ela conta a própria sedução por aquele mundo, o fascínio pelo dinheiro e pelo poder, e também a normalização gradual da violência. Ao dividir o ponto de vista, o filme amplia a crítica sem precisar verbalizá-la. O famoso plano-sequência em que Henry leva Karen pela porta dos fundos do Copacabana é narrativa pura: em poucos minutos entendemos por que ela se apaixona, e por que isso é um problema.

Scorsese filma a máfia como sedução e depois como ressaca

A estrutura do filme é a de uma curva de vício. A primeira metade é euforia: a câmera de Michael Ballhaus desliza por restaurantes, festas e salões com uma fluidez que parece dança, a trilha de clássicos do pop e do rock dos anos 1950 e 1960 embala cada cena, e a montagem de Thelma Schoonmaker corta no ritmo da adrenalina. Os congelamentos de quadro, os zooms rápidos e a narração sobreposta criam uma linguagem própria que seria copiada por décadas, raramente com a mesma precisão.

A segunda metade é a ressaca. A sequência do último dia de Henry como homem livre, filmada em cortes cada vez mais curtos, com helicópteros no céu e molho de tomate no fogão, é um dos trechos mais bem montados da história do cinema americano. A paranoia é construída pela forma, não pelo diálogo. Scorsese mostra o mesmo mundo da primeira metade, os mesmos lugares e as mesmas pessoas, mas agora tudo parece sujo, apertado e perigoso. O vício continua, só que a droga perdeu a graça.

Joe Pesci, De Niro e Liotta: o trio em desequilíbrio

Joe Pesci venceu o Oscar de Ator Coadjuvante por Tommy DeVito e é fácil entender por quê. Tommy é uma bomba com pavio imprevisível, e Pesci faz da violência algo cômico até o instante em que deixa de ser. A cena em que ele pergunta a Henry por que é engraçado, improvisada a partir de uma lembrança do próprio ator, é um estudo de como o riso pode virar terror em segundos. É uma atuação de instabilidade absoluta, e o filme inteiro parece pisar em ovos quando ele está em quadro.

Robert De Niro, como Jimmy Conway, faz o oposto: contenção total, sorriso de mentor e um olhar que calcula o tempo todo. A cena em que ele fuma no bar enquanto decide o destino de um colega, com a câmera avançando lentamente, diz tudo sem uma linha. Ray Liotta, por sua vez, tem o papel mais difícil e menos celebrado. Henry precisa ser carismático o bastante para nos conduzir e fraco o bastante para desmoronar, e Liotta equilibra as duas pontas com um sorriso que vai ficando cada vez mais nervoso. Paul Sorvino completa o quadro como Paulie, a autoridade silenciosa que nunca precisa levantar a voz.

Vale a pena assistir Os Bons Companheiros?

É obrigatório. Poucos filmes influenciaram tanto a linguagem do cinema e da televisão de crime nas décadas seguintes, e rever o original mostra que as cópias pegaram os maneirismos sem pegar a inteligência. A direção de Scorsese é virtuosa sem ser exibicionista, cada recurso de estilo tem função dramática, e o roteiro que ele assina com Pileggi condensa trinta anos de história real em duas horas e meia sem que se perceba a passagem do tempo. A montagem de Schoonmaker, indicada ao Oscar, continua sendo referência de ritmo.

A nota 4,5 reflete um filme praticamente perfeito, com uma única reserva: a frieza. Os Bons Companheiros fascina e choca, mas raramente comove, e a distância que Scorsese mantém dos personagens, essencial para a crítica, também impede qualquer envolvimento emocional mais profundo. É uma escolha, não um erro, mas é o que separa o filme de uma nota máxima. Para quem gosta de cinema de crime, é a pedra fundamental. Para quem acha que já viu tudo sobre máfia, é o lembrete de onde tudo começou.

Pontos fortes

  • Montagem e narração que redefiniram o filme de crime
  • Joe Pesci e De Niro em atuações históricas
  • Trilha e fotografia a serviço do ritmo

Pontos fracos

  • Distância emocional que limita o envolvimento
  • Personagens femininas além de Karen ficam em segundo plano

Veredito: 4,5/5

★★★★★

Os Bons Companheiros é a obra definitiva de Scorsese sobre o crime como estilo de vida, com forma e conteúdo em sintonia rara. Só a frieza calculada impede a nota máxima. Nota 4,5 de 5.

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Perguntas frequentes sobre Os Bons Companheiros

Os Bons Companheiros é baseado em história real?

Sim. O filme adapta o livro Wiseguy, do jornalista Nicholas Pileggi, baseado em entrevistas com Henry Hill, ex-integrante de uma quadrilha ligada à família Lucchese em Nova York. Hill colaborou com a Justiça americana e entrou no programa de proteção a testemunhas, episódio que encerra a trajetória retratada no filme.

Quantos Oscars Os Bons Companheiros ganhou?

Apenas um, o de Melhor Ator Coadjuvante para Joe Pesci, na cerimônia de 1991. O filme recebeu seis indicações, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Martin Scorsese, Roteiro Adaptado, Montagem e Atriz Coadjuvante para Lorraine Bracco, mas perdeu as principais categorias para Dança com Lobos.

Qual é a cena mais famosa de Os Bons Companheiros?

Duas disputam o posto: o plano-sequência em que Henry conduz Karen pela cozinha do clube Copacabana até uma mesa na frente do palco, e a cena em que Tommy, de Joe Pesci, pergunta a Henry por que ele é engraçado. A primeira é exemplo de virtuosismo técnico; a segunda, de tensão construída só por atuação.

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