
Os Bons Companheiros: Scorsese filma a máfia como vício, e o espectador é quem fica dependente
Existe o filme de máfia antes de Os Bons Companheiros e o filme de máfia depois dele. Enquanto O Poderoso Chefão tratava o crime como tragédia operística, Martin Scorsese tratou como vício: sedutor, acelerado, viciante e, no fim, destrutivo. Narrado em primeira pessoa, montado como se tivesse pressa de viver e repleto de atuações que viraram referência, o filme completou mais de três décadas sem perder um grama de energia. É Scorsese no auge absoluto do controle.
Por que a narração de Henry Hill muda tudo?
A primeira frase do filme já define o pacto: Henry Hill nos conta que sempre quis ser gângster, e a partir daí somos cúmplices. A narração em off, adaptada do livro Wiseguy, de Nicholas Pileggi, não explica a trama, ela a seduz. Henry descreve roubos, propinas e assassinatos com o entusiasmo de quem lembra os melhores anos da vida, e Scorsese usa esse tom para colocar o espectador dentro da lógica do crime. Não julgamos porque o narrador não julga. Só mais tarde percebemos onde fomos parar.
A entrada de Karen, vivida por Lorraine Bracco, como segunda narradora é o golpe de mestre do roteiro. Ela conta a própria sedução por aquele mundo, o fascínio pelo dinheiro e pelo poder, e também a normalização gradual da violência. Ao dividir o ponto de vista, o filme amplia a crítica sem precisar verbalizá-la. O famoso plano-sequência em que Henry leva Karen pela porta dos fundos do Copacabana é narrativa pura: em poucos minutos entendemos por que ela se apaixona, e por que isso é um problema.
Scorsese filma a máfia como sedução e depois como ressaca
A estrutura do filme é a de uma curva de vício. A primeira metade é euforia: a câmera de Michael Ballhaus desliza por restaurantes, festas e salões com uma fluidez que parece dança, a trilha de clássicos do pop e do rock dos anos 1950 e 1960 embala cada cena, e a montagem de Thelma Schoonmaker corta no ritmo da adrenalina. Os congelamentos de quadro, os zooms rápidos e a narração sobreposta criam uma linguagem própria que seria copiada por décadas, raramente com a mesma precisão.
A segunda metade é a ressaca. A sequência do último dia de Henry como homem livre, filmada em cortes cada vez mais curtos, com helicópteros no céu e molho de tomate no fogão, é um dos trechos mais bem montados da história do cinema americano. A paranoia é construída pela forma, não pelo diálogo. Scorsese mostra o mesmo mundo da primeira metade, os mesmos lugares e as mesmas pessoas, mas agora tudo parece sujo, apertado e perigoso. O vício continua, só que a droga perdeu a graça.
Joe Pesci, De Niro e Liotta: o trio em desequilíbrio
Joe Pesci venceu o Oscar de Ator Coadjuvante por Tommy DeVito e é fácil entender por quê. Tommy é uma bomba com pavio imprevisível, e Pesci faz da violência algo cômico até o instante em que deixa de ser. A cena em que ele pergunta a Henry por que é engraçado, improvisada a partir de uma lembrança do próprio ator, é um estudo de como o riso pode virar terror em segundos. É uma atuação de instabilidade absoluta, e o filme inteiro parece pisar em ovos quando ele está em quadro.
Robert De Niro, como Jimmy Conway, faz o oposto: contenção total, sorriso de mentor e um olhar que calcula o tempo todo. A cena em que ele fuma no bar enquanto decide o destino de um colega, com a câmera avançando lentamente, diz tudo sem uma linha. Ray Liotta, por sua vez, tem o papel mais difícil e menos celebrado. Henry precisa ser carismático o bastante para nos conduzir e fraco o bastante para desmoronar, e Liotta equilibra as duas pontas com um sorriso que vai ficando cada vez mais nervoso. Paul Sorvino completa o quadro como Paulie, a autoridade silenciosa que nunca precisa levantar a voz.
Vale a pena assistir Os Bons Companheiros?
É obrigatório. Poucos filmes influenciaram tanto a linguagem do cinema e da televisão de crime nas décadas seguintes, e rever o original mostra que as cópias pegaram os maneirismos sem pegar a inteligência. A direção de Scorsese é virtuosa sem ser exibicionista, cada recurso de estilo tem função dramática, e o roteiro que ele assina com Pileggi condensa trinta anos de história real em duas horas e meia sem que se perceba a passagem do tempo. A montagem de Schoonmaker, indicada ao Oscar, continua sendo referência de ritmo.
A nota 4,5 reflete um filme praticamente perfeito, com uma única reserva: a frieza. Os Bons Companheiros fascina e choca, mas raramente comove, e a distância que Scorsese mantém dos personagens, essencial para a crítica, também impede qualquer envolvimento emocional mais profundo. É uma escolha, não um erro, mas é o que separa o filme de uma nota máxima. Para quem gosta de cinema de crime, é a pedra fundamental. Para quem acha que já viu tudo sobre máfia, é o lembrete de onde tudo começou.
Pontos fortes
- Montagem e narração que redefiniram o filme de crime
- Joe Pesci e De Niro em atuações históricas
- Trilha e fotografia a serviço do ritmo
Pontos fracos
- Distância emocional que limita o envolvimento
- Personagens femininas além de Karen ficam em segundo plano
Veredito: 4,5/5
★★★★★Os Bons Companheiros é a obra definitiva de Scorsese sobre o crime como estilo de vida, com forma e conteúdo em sintonia rara. Só a frieza calculada impede a nota máxima. Nota 4,5 de 5.
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Perguntas frequentes sobre Os Bons Companheiros
Os Bons Companheiros é baseado em história real?
Sim. O filme adapta o livro Wiseguy, do jornalista Nicholas Pileggi, baseado em entrevistas com Henry Hill, ex-integrante de uma quadrilha ligada à família Lucchese em Nova York. Hill colaborou com a Justiça americana e entrou no programa de proteção a testemunhas, episódio que encerra a trajetória retratada no filme.
Quantos Oscars Os Bons Companheiros ganhou?
Apenas um, o de Melhor Ator Coadjuvante para Joe Pesci, na cerimônia de 1991. O filme recebeu seis indicações, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Martin Scorsese, Roteiro Adaptado, Montagem e Atriz Coadjuvante para Lorraine Bracco, mas perdeu as principais categorias para Dança com Lobos.
Qual é a cena mais famosa de Os Bons Companheiros?
Duas disputam o posto: o plano-sequência em que Henry conduz Karen pela cozinha do clube Copacabana até uma mesa na frente do palco, e a cena em que Tommy, de Joe Pesci, pergunta a Henry por que ele é engraçado. A primeira é exemplo de virtuosismo técnico; a segunda, de tensão construída só por atuação.



