Pôster de Barbie

Crítica: Barbie

2023

3,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Greta Gerwig
Roteiro
Greta Gerwig, Noah Baumbach
Elenco
Margot Robbie, Ryan Gosling, America Ferrera, Kate McKinnon, Will Ferrell, Issa Rae
Gêneros
Comédia, Fantasia, Aventura
Ano
2023
Duração
1h54
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Barbie
Imagem: divulgação

Barbie: Greta Gerwig faz uma comédia visualmente deslumbrante que tropeça no próprio discurso

SINOPSENa Barbieland, todas as Barbies vivem dias perfeitos e todos os Kens existem para admirá-las. Quando a Barbie Estereotipada começa a ter pensamentos sobre a morte e descobre defeitos no próprio corpo, precisa viajar ao mundo real para consertar o que deu errado. Ken vai junto e descobre um conceito que vai virar a Barbieland de cabeça para baixo.

Barbie foi o fenômeno cultural de 2023, com bilheteria bilionária, cinemas tingidos de rosa e um debate público que durou meses. Separar o filme do evento não é fácil, mas é necessário. Visto com frieza, o longa de Greta Gerwig é uma comédia de alto orçamento com direção de arte brilhante, um Ryan Gosling impagável e um roteiro que, de tanto querer dizer tudo, acaba dizendo em voz alta o que o filme já havia mostrado. Funciona, mas para um público bem específico.

Greta Gerwig fez um filme sobre a boneca ou contra ela?

As duas coisas, e aí mora o problema. O roteiro de Gerwig e Noah Baumbach quer celebrar a Barbie como ícone e ao mesmo tempo criticar o que ela representa, e tenta equilibrar essas duas forças com ironia. Na primeira metade, isso funciona: a Barbieland é apresentada com uma autoconsciência divertida, cada clichê da marca é exibido e desmontado ao mesmo tempo, e o filme ri de si mesmo antes que o público possa rir dele. É sátira corporativa feita de dentro da corporação, o que já é uma contradição interessante.

O problema é que a crítica tem um teto, e esse teto é a própria fabricante da boneca, retratada no filme com um conselho de executivos bufões liderado por Will Ferrell. A sátira é desdentada por natureza: pode zombar do machismo e do consumismo em geral, mas nunca morde a mão que a produz. Isso não seria grave se o filme não insistisse em se apresentar como discurso. Quando a comédia funciona, Barbie é ótimo. Quando para a comédia para explicar a tese, vira aula, e as aulas são frequentes demais.

Margot Robbie e Ryan Gosling salvam o roteiro?

Gosling, com certeza. O ator entende que Ken é um personagem sem interioridade e transforma essa ausência em comédia física de primeira grandeza. Cada expressão de confusão, cada pose e principalmente o número musical que ele protagoniza no terceiro ato são os pontos altos da projeção. É o tipo de atuação cômica que parece fácil e não é, e a indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante foi mais do que justa. Toda vez que o filme perde o fio, Ken aparece e recupera.

Margot Robbie tem a tarefa mais ingrata. A Barbie Estereotipada precisa ser ao mesmo tempo perfeita e em crise, ingênua e autoconsciente, e o roteiro não dá a ela ferramentas suficientes para sustentar o arco. Robbie entrega carisma e timing, mas a personagem fica reativa, levada pela trama em vez de conduzi-la. America Ferrera, como a funcionária do mundo real, herda o monólogo mais comentado do filme e o executa bem, mas o texto é tão explícito que soa como manifesto lido em voz alta. Kate McKinnon, como a Barbie Estranha, rouba as poucas cenas que tem.

Por que o terceiro ato desanda?

O filme perde o controle do tom quando precisa resolver a trama. A primeira hora é uma sátira ágil; a última meia hora quer ser comédia, musical, drama existencial e ensaio feminista ao mesmo tempo, e acaba sendo um pouco de cada coisa sem convicção em nenhuma. A montagem acelera, personagens secundários somem, e a resolução do conflito na Barbieland se dá por um mecanismo tão simplista que mina a inteligência que o filme havia demonstrado antes. É como se Gerwig tivesse muitas ideias e nenhuma vontade de cortar.

A direção de arte de Sarah Greenwood e a fotografia de Rodrigo Prieto merecem crédito permanente: a Barbieland é um dos mundos cenográficos mais bem construídos do cinema recente, feita de plástico brilhante, céus pintados e escalas propositalmente erradas que remetem ao brinquedo. A trilha, com o tema de Billie Eilish premiado com o Oscar de Canção Original, é bem integrada. Mas beleza visual não resolve problema de estrutura, e Barbie chega ao fim com a sensação de que o filme que prometia ser era mais interessante do que o filme que é.

Vale a pena assistir Barbie?

Depende muito de quem pergunta. Para quem cresceu com a boneca, gosta de comédias autoconscientes e aceita que a mensagem venha mastigada, Barbie é diversão garantida, com visual que vale a sessão e pelo menos meia dúzia de piadas memoráveis. Para quem esperava a sátira ácida que a campanha prometia, ou o rigor narrativo dos filmes anteriores de Greta Gerwig, a decepção é provável. É um filme que sabe exatamente para quem fala e não se esforça muito para convencer quem está fora desse círculo.

A nota 3 traduz um filme regular, com momentos brilhantes e outros francamente irritantes. Não é o desastre que alguns críticos pintaram nem a obra-prima que o fenômeno de bilheteria sugeriu. É uma comédia de estúdio bem produzida, com uma atuação coadjuvante excelente, um design de produção extraordinário e um roteiro que confunde explicar com aprofundar. Vale ver uma vez, de preferência sem a expectativa de que o filme vá mudar alguma coisa. Ele não quer, e talvez nunca tenha querido.

Pontos fortes

  • Design de produção e fotografia espetaculares
  • Ryan Gosling em atuação cômica de alto nível
  • Primeira metade ágil e autoconsciente

Pontos fracos

  • Roteiro que explica a tese em vez de dramatizá-la
  • Terceiro ato disperso e sem controle de tom

Veredito: 3,0/5

★★★★★

Barbie é uma comédia visualmente impecável que funciona para quem já chega disposto a embarcar, mas o roteiro troca sátira por discurso e o terceiro ato se perde. Regular, com um Ryan Gosling que vale o ingresso. Nota 3 de 5.

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Perguntas frequentes sobre Barbie

Barbie é um filme para crianças?

Não exatamente. Apesar da boneca, o humor é dirigido a adolescentes e adultos, com piadas sobre existencialismo, relações de gênero e cultura corporativa que passam longe do público infantil. No Brasil, a classificação indicativa foi de 12 anos. Crianças pequenas tendem a se encantar com o visual, mas não acompanham a trama.

Barbie ganhou Oscar?

Sim, um. A canção What Was I Made For?, de Billie Eilish e Finneas, venceu Melhor Canção Original na cerimônia de 2024. O filme recebeu oito indicações, incluindo Melhor Filme, Ator Coadjuvante para Ryan Gosling e Atriz Coadjuvante para America Ferrera, mas Greta Gerwig ficou de fora da categoria de direção.

Quem escreveu o roteiro de Barbie?

O roteiro é de Greta Gerwig e Noah Baumbach, parceiros na vida pessoal e em projetos anteriores. Gerwig também dirige, o que faz do filme seu terceiro longa solo na direção, depois de Lady Bird e Adoráveis Mulheres. A dupla foi indicada ao Oscar de Roteiro Adaptado por Barbie.

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