
Barbie: Greta Gerwig faz uma comédia visualmente deslumbrante que tropeça no próprio discurso
Barbie foi o fenômeno cultural de 2023, com bilheteria bilionária, cinemas tingidos de rosa e um debate público que durou meses. Separar o filme do evento não é fácil, mas é necessário. Visto com frieza, o longa de Greta Gerwig é uma comédia de alto orçamento com direção de arte brilhante, um Ryan Gosling impagável e um roteiro que, de tanto querer dizer tudo, acaba dizendo em voz alta o que o filme já havia mostrado. Funciona, mas para um público bem específico.
Greta Gerwig fez um filme sobre a boneca ou contra ela?
As duas coisas, e aí mora o problema. O roteiro de Gerwig e Noah Baumbach quer celebrar a Barbie como ícone e ao mesmo tempo criticar o que ela representa, e tenta equilibrar essas duas forças com ironia. Na primeira metade, isso funciona: a Barbieland é apresentada com uma autoconsciência divertida, cada clichê da marca é exibido e desmontado ao mesmo tempo, e o filme ri de si mesmo antes que o público possa rir dele. É sátira corporativa feita de dentro da corporação, o que já é uma contradição interessante.
O problema é que a crítica tem um teto, e esse teto é a própria fabricante da boneca, retratada no filme com um conselho de executivos bufões liderado por Will Ferrell. A sátira é desdentada por natureza: pode zombar do machismo e do consumismo em geral, mas nunca morde a mão que a produz. Isso não seria grave se o filme não insistisse em se apresentar como discurso. Quando a comédia funciona, Barbie é ótimo. Quando para a comédia para explicar a tese, vira aula, e as aulas são frequentes demais.
Margot Robbie e Ryan Gosling salvam o roteiro?
Gosling, com certeza. O ator entende que Ken é um personagem sem interioridade e transforma essa ausência em comédia física de primeira grandeza. Cada expressão de confusão, cada pose e principalmente o número musical que ele protagoniza no terceiro ato são os pontos altos da projeção. É o tipo de atuação cômica que parece fácil e não é, e a indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante foi mais do que justa. Toda vez que o filme perde o fio, Ken aparece e recupera.
Margot Robbie tem a tarefa mais ingrata. A Barbie Estereotipada precisa ser ao mesmo tempo perfeita e em crise, ingênua e autoconsciente, e o roteiro não dá a ela ferramentas suficientes para sustentar o arco. Robbie entrega carisma e timing, mas a personagem fica reativa, levada pela trama em vez de conduzi-la. America Ferrera, como a funcionária do mundo real, herda o monólogo mais comentado do filme e o executa bem, mas o texto é tão explícito que soa como manifesto lido em voz alta. Kate McKinnon, como a Barbie Estranha, rouba as poucas cenas que tem.
Por que o terceiro ato desanda?
O filme perde o controle do tom quando precisa resolver a trama. A primeira hora é uma sátira ágil; a última meia hora quer ser comédia, musical, drama existencial e ensaio feminista ao mesmo tempo, e acaba sendo um pouco de cada coisa sem convicção em nenhuma. A montagem acelera, personagens secundários somem, e a resolução do conflito na Barbieland se dá por um mecanismo tão simplista que mina a inteligência que o filme havia demonstrado antes. É como se Gerwig tivesse muitas ideias e nenhuma vontade de cortar.
A direção de arte de Sarah Greenwood e a fotografia de Rodrigo Prieto merecem crédito permanente: a Barbieland é um dos mundos cenográficos mais bem construídos do cinema recente, feita de plástico brilhante, céus pintados e escalas propositalmente erradas que remetem ao brinquedo. A trilha, com o tema de Billie Eilish premiado com o Oscar de Canção Original, é bem integrada. Mas beleza visual não resolve problema de estrutura, e Barbie chega ao fim com a sensação de que o filme que prometia ser era mais interessante do que o filme que é.
Vale a pena assistir Barbie?
Depende muito de quem pergunta. Para quem cresceu com a boneca, gosta de comédias autoconscientes e aceita que a mensagem venha mastigada, Barbie é diversão garantida, com visual que vale a sessão e pelo menos meia dúzia de piadas memoráveis. Para quem esperava a sátira ácida que a campanha prometia, ou o rigor narrativo dos filmes anteriores de Greta Gerwig, a decepção é provável. É um filme que sabe exatamente para quem fala e não se esforça muito para convencer quem está fora desse círculo.
A nota 3 traduz um filme regular, com momentos brilhantes e outros francamente irritantes. Não é o desastre que alguns críticos pintaram nem a obra-prima que o fenômeno de bilheteria sugeriu. É uma comédia de estúdio bem produzida, com uma atuação coadjuvante excelente, um design de produção extraordinário e um roteiro que confunde explicar com aprofundar. Vale ver uma vez, de preferência sem a expectativa de que o filme vá mudar alguma coisa. Ele não quer, e talvez nunca tenha querido.
Pontos fortes
- Design de produção e fotografia espetaculares
- Ryan Gosling em atuação cômica de alto nível
- Primeira metade ágil e autoconsciente
Pontos fracos
- Roteiro que explica a tese em vez de dramatizá-la
- Terceiro ato disperso e sem controle de tom
Veredito: 3,0/5
★★★★★Barbie é uma comédia visualmente impecável que funciona para quem já chega disposto a embarcar, mas o roteiro troca sátira por discurso e o terceiro ato se perde. Regular, com um Ryan Gosling que vale o ingresso. Nota 3 de 5.
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Perguntas frequentes sobre Barbie
Barbie é um filme para crianças?
Não exatamente. Apesar da boneca, o humor é dirigido a adolescentes e adultos, com piadas sobre existencialismo, relações de gênero e cultura corporativa que passam longe do público infantil. No Brasil, a classificação indicativa foi de 12 anos. Crianças pequenas tendem a se encantar com o visual, mas não acompanham a trama.
Barbie ganhou Oscar?
Sim, um. A canção What Was I Made For?, de Billie Eilish e Finneas, venceu Melhor Canção Original na cerimônia de 2024. O filme recebeu oito indicações, incluindo Melhor Filme, Ator Coadjuvante para Ryan Gosling e Atriz Coadjuvante para America Ferrera, mas Greta Gerwig ficou de fora da categoria de direção.
Quem escreveu o roteiro de Barbie?
O roteiro é de Greta Gerwig e Noah Baumbach, parceiros na vida pessoal e em projetos anteriores. Gerwig também dirige, o que faz do filme seu terceiro longa solo na direção, depois de Lady Bird e Adoráveis Mulheres. A dupla foi indicada ao Oscar de Roteiro Adaptado por Barbie.



