Pôster de Que Horas Ela Volta?

Crítica: Que Horas Ela Volta?

2015

4,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Anna Muylaert
Roteiro
Anna Muylaert
Elenco
Regina Casé, Camila Márdila, Michel Joelsas, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Helena Albergaria
Gêneros
Drama, Comédia
Ano
2015
Duração
1h52
País
Brasil
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Que Horas Ela Volta?
Imagem: divulgação

Que Horas Ela Volta?: Regina Casé e Anna Muylaert expõem a casa-grande brasileira sem gritar

SINOPSEVal deixou Pernambuco há mais de uma década para trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família rica de São Paulo, onde praticamente criou o filho dos patrões. Quando Jéssica, a filha que ela deixou no Nordeste, chega à cidade para prestar vestibular, as regras não ditas daquela casa começam a ser questionadas. O equilíbrio silencioso entre afeto e hierarquia entra em colapso.

Há filmes que explicam o Brasil e filmes que simplesmente o mostram. Que Horas Ela Volta? pertence ao segundo grupo. Anna Muylaert pega uma situação cotidiana em milhares de lares de classe média alta, a empregada que mora no emprego e é tratada como quase da família, e observa o que acontece quando alguém de fora se recusa a aceitar o quase. O resultado é um dos dramas brasileiros mais precisos da década, conduzido por uma Regina Casé em estado de graça.

Regina Casé entrega a melhor atuação da carreira?

Provavelmente. Casé, associada por décadas à televisão e a um registro expansivo, constrói Val com economia surpreendente. A personagem fala muito, ri alto e gesticula, mas tudo isso é máscara de sobrevivência: por baixo há uma mulher que internalizou cada regra da casa e as defende com mais rigor do que os próprios patrões. A atriz consegue fazer com que a plateia ria de Val e, segundos depois, sinta vergonha de ter rido. É um trabalho de camadas, e o prêmio de atuação em Sundance, dividido com Camila Márdila, reconheceu isso.

Márdila, aliás, é o contraponto perfeito. Jéssica não é uma heroína militante nem uma intrusa mal-educada, mas uma jovem que simplesmente não entende por que não pode sentar à mesa, nadar na piscina ou dormir no quarto de hóspedes. Sua naturalidade é o que desestabiliza todo mundo, inclusive a mãe. Karine Teles, como a patroa Bárbara, evita a caricatura da madame cruel e constrói algo mais incômodo: uma mulher que se acha progressista e descobre os próprios limites quando a hierarquia é testada. Lourenço Mutarelli, como o marido apático, completa o retrato com precisão.

O roteiro de Anna Muylaert fala de classe sem discurso?

Essa é a maior virtude do filme. Muylaert levou anos escrevendo o roteiro e isso se nota na recusa a qualquer fala panfletária. Ninguém discursa sobre desigualdade; a desigualdade está no sorvete que Jéssica não deveria comer, no quarto sem janela, na forma como Bárbara diz que a empregada é da família enquanto a manda comer na cozinha. A comédia nasce desse desconforto, e o filme é mais engraçado do que a sinopse sugere, mas o riso sempre vem acompanhado de um incômodo que não vai embora.

Há também uma inteligência rara na construção dos paralelos. Val criou Fabinho, o filho dos patrões, vivido por Michel Joelsas, enquanto a própria filha crescia longe. Bárbara é mãe biológica, mas ausente. Jéssica chega para disputar vaga na mesma universidade que Fabinho, e o resultado do vestibular funciona como comentário social sem que ninguém precise verbalizá-lo. O roteiro confia na plateia para ligar os pontos, e essa confiança é o que separa o filme de tantos dramas sociais brasileiros que preferem explicar em vez de mostrar.

A direção e a fotografia reforçam a hierarquia da casa

Muylaert filma a casa como um mapa de poder. A câmera, quase sempre fixa, enquadra Val nos cantos, nas portas, atrás de balcões, enquanto os patrões ocupam o centro dos cômodos. A piscina, filmada do alto e de longe, aparece como território proibido até o momento em que deixa de ser. É uma direção que não chama atenção para si, mas cada escolha de posição de câmera carrega significado. Quando a geografia da casa é violada, o espectador sente antes de racionalizar.

O ritmo é deliberadamente contido, e isso pode incomodar quem espera conflitos explícitos. O filme prefere o acúmulo de pequenas transgressões ao grande confronto, e a resolução, quando chega, é discreta a ponto de parecer anticlimática para parte do público. A montagem respeita esse tempo e evita sublinhar emoções com trilha, que é usada com parcimônia. Se há uma crítica a fazer, é que alguns personagens secundários, como o patrão e a amiga de Val vivida por Helena Albergaria, ficam esboçados demais num roteiro que poderia abrir mais espaço para eles.

Vale a pena assistir Que Horas Ela Volta?

Vale muito, e vale especialmente para quem acha que cinema brasileiro de temática social é sinônimo de peso e sermão. Que Horas Ela Volta? é leve na superfície, afiado por dentro e consegue a proeza de ser acessível sem ser simplista. A atuação de Regina Casé sozinha justificaria a sessão, mas o conjunto, direção segura, roteiro milimétrico e um elenco de apoio afinado, faz do filme uma das obras essenciais da produção nacional dos anos 2010. Foi o representante brasileiro na disputa por uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro, e com mérito.

A nota 4 reconhece um filme quase impecável no que se propõe, com pequenas reservas no ritmo do terceiro ato e na pouca profundidade de alguns coadjuvantes. Não é um filme de grandes gestos, e quem busca catarse pode sair com a sensação de que faltou alguma coisa. Mas é exatamente essa contenção que o torna duradouro: dez anos depois, as cenas do sorvete, da piscina e do quarto continuam desconfortáveis porque a casa que o filme retrata continua existindo.

Pontos fortes

  • Regina Casé em atuação de rara precisão
  • Roteiro que trata classe sem discurso ou caricatura
  • Direção que usa a geografia da casa como linguagem

Pontos fracos

  • Terceiro ato contido demais para parte do público
  • Coadjuvantes masculinos pouco desenvolvidos

Veredito: 4,0/5

★★★★★

Que Horas Ela Volta? é um retrato cirúrgico das relações de classe no Brasil, feito com humor, afeto e uma Regina Casé memorável. A contenção pode frustrar quem espera catarse, mas é também o que garante sua força. Nota 4 de 5.

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Perguntas frequentes sobre Que Horas Ela Volta?

Que Horas Ela Volta? ganhou prêmios?

Sim. No Festival de Sundance de 2015, Regina Casé e Camila Márdila receberam o Prêmio Especial do Júri de atuação na mostra internacional. No Festival de Berlim do mesmo ano, o filme levou o Prêmio do Público da mostra Panorama. Também foi o indicado brasileiro ao Oscar de Filme Estrangeiro de 2016.

Qual é o título de Que Horas Ela Volta? em inglês?

No mercado internacional o filme foi lançado como The Second Mother, ou seja, A Segunda Mãe, em referência ao papel de Val na criação do filho dos patrões. O título original em português vem da pergunta que o menino faz repetidamente sobre a mãe ausente, e perde parte do sentido na tradução.

Que Horas Ela Volta? é baseado em história real?

Não é uma adaptação de um caso específico, mas Anna Muylaert afirmou em entrevistas que partiu de observações da própria experiência e de situações comuns nas casas de classe média alta brasileira. A força do filme está justamente em reconhecer, na ficção, dinâmicas reais do trabalho doméstico no país.

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