
Coringa: Joaquin Phoenix é gigante num filme que pensa menos do que aparenta
Coringa chegou aos cinemas cercado de polêmica, Leão de Ouro em Veneza e uma campanha que o vendia como o filme de quadrinhos que não é filme de quadrinhos. Parte dessa promessa foi cumprida. Todd Phillips abandona o espetáculo digital e aposta num drama de personagem sujo, lento e desconfortável. O problema é que, retirada a camada de provocação, o roteiro tem menos a dizer do que sugere. Sobra uma atuação monumental sustentando um filme apenas bom.
Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho?
Quase. A transformação física de Phoenix, com perda de peso visível e uma postura torta que parece doer, é só a superfície de um trabalho que vai além do método. O riso compulsivo de Arthur, que o roteiro trata como condição neurológica, é executado de um jeito que mistura dor e constrangimento, nunca comédia. As cenas em que ele dança sozinho, no banheiro ou na escadaria, mostram um ator inventando a linguagem corporal do personagem em tempo real. O Oscar de Melhor Ator foi merecido e previsível.
O elenco de apoio funciona, mas em registro bem menor. Robert De Niro, como o apresentador de televisão Murray Franklin, cumpre a função de espelho invertido de seu próprio papel em O Rei da Comédia, e a referência é tão explícita que vira piscadela. Frances Conroy, como a mãe de Arthur, dá à relação entre os dois uma fragilidade real, e Zazie Beetz tem pouco tempo de tela para um papel que o roteiro usa mais como dispositivo do que como pessoa. Tudo converge para Phoenix, e o filme sabe disso.
A Gotham de Todd Phillips tem algo a dizer?
Visualmente, muito. A fotografia de Lawrence Sher constrói uma Gotham de lixo acumulado, néon doente e metrô pichado que remete à Nova York dos anos 1970 e 1980, e a trilha de Hildur Guðnadóttir, construída em torno de um violoncelo grave e arrastado, dá ao filme um peso fúnebre que nenhum outro longa de super-herói tentou. A direção de arte e a música são os grandes trunfos ao lado de Phoenix, e a escadaria do Bronx virou ícone instantâneo por mérito da composição de quadro, não só do marketing.
Tematicamente, menos. O filme gesticula para cortes em serviços sociais, desigualdade e o abandono dos doentes mentais, mas usa esses temas como cenário, não como argumento. Arthur é vítima de tudo e de todos, numa sucessão de humilhações que o roteiro empilha sem nuance, e a cidade reage à sua violência de um jeito que parece conveniente demais para a tese. Falta a ambiguidade de Taxi Driver, referência óbvia e assumida: Scorsese nunca pediu que torcêssemos por Travis Bickle, enquanto Phillips oscila entre condenar e glamourizar Arthur.
Onde Coringa fica devendo?
O roteiro de Phillips e Scott Silver é o elo fraco. A estrutura é linear e previsível, cada cena funciona como um degrau da descida, e o filme nunca surpreende o espectador que já entendeu a direção na primeira meia hora. Os momentos de ambiguidade entre realidade e delírio, que poderiam ser a grande arma narrativa, são resolvidos de forma didática, com o filme explicando o que acabamos de ver. Há também uma dependência excessiva de referências: o filme cita Scorsese com tanta frequência que às vezes parece uma homenagem sem voz própria.
Outro problema é o vínculo com a mitologia do Batman. A subtrama envolvendo a família Wayne parece enxertada para garantir que o público reconheça o universo, e o filme perde foco toda vez que a abraça. O Coringa dos quadrinhos sempre funcionou melhor como força sem origem, e dar a ele uma história de trauma explicável reduz o personagem em vez de ampliá-lo. É uma escolha legítima, mas o filme não a defende com convicção suficiente para justificá-la. Em dois ou três momentos, parece querer agradar a dois públicos ao mesmo tempo.
Vale a pena assistir Coringa?
Vale, principalmente por Joaquin Phoenix, por Hildur Guðnadóttir e pela coragem de fazer um filme de estúdio sem efeitos digitais, sem alívio cômico e sem herói. Para o padrão das adaptações de quadrinhos, Coringa é um corpo estranho bem-vindo, e a bilheteria mostrou que havia público para esse tipo de aposta. A direção de Phillips é mais competente do que se esperava de um cineasta vindo da comédia, e a ambientação sustenta a imersão do início ao fim.
A nota 3,5 reflete um filme bom com ressalvas claras. É uma experiência intensa, mas rasa quando se tenta discutir o que ela quer dizer, e o roteiro depende de empréstimos de obras melhores. Quem busca um estudo de personagem denso vai encontrar uma atuação densa dentro de um filme mediano. Quem busca um filme de quadrinhos diferente vai sair satisfeito. Entre a provocação e a profundidade, Coringa fica no meio do caminho, e é exatamente aí que a nota se justifica.
Pontos fortes
- Atuação de Joaquin Phoenix em nível raro
- Trilha de Hildur Guðnadóttir e fotografia imersiva
- Coragem de fugir do padrão dos filmes de quadrinhos
Pontos fracos
- Roteiro previsível e tematicamente raso
- Dependência excessiva de referências a Scorsese
Veredito: 3,5/5
★★★★★Coringa é um filme bom sustentado por uma atuação extraordinária e uma trilha memorável, mas cujo roteiro promete mais do que entrega e se apoia demais em homenagens. Vale a sessão, com expectativas calibradas. Nota 3,5 de 5.
Quer assistir filmes como Coringa?
Chame no WhatsApp e venha assistir aqui.
Perguntas frequentes sobre Coringa
Coringa está conectado ao Batman ou a outros filmes da DC?
Não diretamente. Coringa é uma história independente, sem ligação com os filmes anteriores da DC ou com o universo compartilhado do estúdio. Personagens ligados à mitologia do Batman, como a família Wayne, aparecem, mas o filme se passa numa Gotham própria e pode ser visto isoladamente.
Coringa ganhou Oscar?
Sim, dois. Joaquin Phoenix venceu Melhor Ator e Hildur Guðnadóttir levou Melhor Trilha Sonora Original na cerimônia de 2020. O filme recebeu onze indicações no total, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor, e antes disso já havia vencido o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2019.
Coringa é inspirado em outros filmes?
Sim, e de forma assumida. Todd Phillips citou Taxi Driver e O Rei da Comédia, ambos de Martin Scorsese e estrelados por Robert De Niro, como referências centrais. A presença de De Niro no elenco, num papel que inverte o de O Rei da Comédia, é uma homenagem deliberada a essa influência.



