Pôster de Ainda Estou Aqui

Crítica: Ainda Estou Aqui

2024

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Walter Salles
Roteiro
Murilo Hauser, Heitor Lorega
Elenco
Fernanda Torres, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Valentina Herszage
Gêneros
Drama, Biografia, Histórico
Ano
2024
País
Brasil
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Ainda Estou Aqui
Imagem: divulgação

Ainda Estou Aqui: Fernanda Torres conduz um retrato contido e devastador da ditadura

SINOPSERio de Janeiro, início dos anos 1970. Eunice Paiva vive com o marido, o ex-deputado Rubens Paiva, e os cinco filhos numa casa sempre cheia, perto da praia. Quando a ditadura militar invade essa rotina, ela precisa reinventar a própria vida para manter a família de pé.

Ainda Estou Aqui é um filme sobre ausência, e talvez por isso seja tão presente. Walter Salles adapta o livro de Marcelo Rubens Paiva com uma contenção admirável, recusando o panfleto e o melodrama para observar de perto uma família atravessada pela violência do Estado. Com Fernanda Torres em atuação extraordinária, o longa se tornou um fenômeno de público e crítica e marcou um capítulo histórico para o cinema brasileiro.

Fernanda Torres sustenta o filme com uma atuação de silêncios

Tudo em Ainda Estou Aqui passa pelo rosto de Fernanda Torres. Sua Eunice é uma mulher que aprende a não desmoronar diante dos filhos, e a atriz traduz essa resistência em gestos mínimos: um sorriso forçado para a foto, um cigarro aceso na varanda, uma pergunta que fica sem resposta. Não há cenas de choro catártico construídas para trailers. A dor aparece contida, quase domesticada, o que torna tudo ainda mais devastador para quem assiste.

O trabalho rendeu a Fernanda o Globo de Ouro de melhor atriz em drama e uma indicação ao Oscar de melhor atriz, um reconhecimento que ecoa a trajetória da mãe, Fernanda Montenegro, também presente no elenco. Selton Mello, como Rubens Paiva, tem participação menor, mas fundamental: seu carisma e sua leveza nas cenas domésticas fazem o público sentir o tamanho do vazio que a história vai abordar. A química entre os dois convence desde os primeiros minutos.

Walter Salles reconstrói a memória de uma família e de um país

A primeira parte do filme é uma pequena obra-prima de ambientação. Salles mostra a casa dos Paiva como um organismo vivo, cheio de crianças, amigos, discos, conversas políticas e idas à praia. Essa felicidade cotidiana é filmada sem idealização, mas com afeto evidente, e não por acaso: o diretor frequentou a casa da família na juventude. As imagens em Super-8, que imitam os registros caseiros da época, reforçam a sensação de que estamos folheando um álbum de memórias.

Quando a ditadura entra em cena, o filme muda de temperatura sem mudar de tom. Salles evita mostrar a violência de forma explícita e prefere o que acontece fora de quadro, nas salas de espera, nos interrogatórios e nas perguntas que ninguém responde. É uma escolha ética e estética que confia no espectador e que torna a experiência mais angustiante. O filme fala de um período histórico específico, mas sua reflexão sobre memória e apagamento conversa diretamente com o presente.

Roteiro, fotografia e trilha a serviço da contenção

O roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega, premiado no Festival de Veneza, acerta ao concentrar a narrativa no ponto de vista de Eunice. Isso permite que o filme trate de um tema enorme a partir de detalhes íntimos, como a rotina das crianças, as contas para pagar e a necessidade de explicar o inexplicável. Em alguns momentos da segunda metade, porém, a narrativa perde um pouco de fôlego e certas passagens parecem mais episódicas, o que afasta o filme da perfeição.

A fotografia de Adrian Teijido trabalha com luz natural e cores quentes no início, que vão se apagando conforme a casa esvazia. A trilha original de Warren Ellis é discreta e melancólica, e divide espaço com canções brasileiras da época, como a música de Erasmo Carlos que pontua momentos-chave. A direção de arte reconstitui o Rio dos anos 1970 com rigor, sem transformar a época em vitrine. Tudo conspira para que o drama pareça vivido, e não encenado.

Vale a pena assistir Ainda Estou Aqui?

Vale, e muito. Ainda Estou Aqui venceu o Oscar de melhor filme internacional, o primeiro do Brasil na categoria, e ainda foi indicado a melhor filme, algo inédito para uma produção brasileira. Mas o motivo para assistir vai além dos prêmios: é um filme que emociona sem manipular e que devolve ao público um pedaço importante da história do país, contado com sensibilidade e respeito. É daqueles que provocam conversa longa depois da sessão.

Quem espera um thriller político cheio de reviravoltas pode estranhar o ritmo contemplativo e a opção por não mostrar a violência diretamente. Mas é justamente essa escolha que dá ao filme sua força. Para conhecer melhor o período da ditadura militar, para admirar uma das maiores atuações recentes do cinema nacional ou simplesmente para ver um grande drama familiar, Ainda Estou Aqui é obrigatório. Um filme que confirma Walter Salles como um dos nossos grandes cineastas.

Pontos fortes

  • Atuação extraordinária e contida de Fernanda Torres
  • Direção sensível que evita o panfleto
  • Reconstituição de época rigorosa e afetuosa

Pontos fracos

  • Segunda metade perde um pouco de fôlego
  • Ritmo contemplativo pode afastar parte do público

Veredito: 4,5/5

★★★★★

Ainda Estou Aqui é um drama histórico contido e poderoso, guiado por uma Fernanda Torres monumental. Walter Salles transforma a dor de uma família em memória coletiva. Um marco do cinema brasileiro.

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Perguntas frequentes sobre Ainda Estou Aqui

Ainda Estou Aqui é baseado em história real?

Sim. O filme adapta o livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, que narra a história real de sua mãe, Eunice Paiva, e da família após o ex-deputado Rubens Paiva ser levado por agentes da ditadura militar, em 1971, no Rio de Janeiro.

Onde se passa Ainda Estou Aqui?

A maior parte da história se passa no Rio de Janeiro, no início dos anos 1970, principalmente na casa da família Paiva, próxima à praia. A reconstituição de época recria ruas, figurinos, carros e músicas do período da ditadura militar no Brasil.

Qual é a duração de Ainda Estou Aqui?

Ainda Estou Aqui tem pouco mais de duas horas e quinze minutos de duração. O ritmo é contemplativo, com a primeira parte dedicada ao cotidiano da família Paiva e a seguinte concentrada na transformação de Eunice diante da ausência do marido.

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