Pôster de O Labirinto do Fauno

Crítica: O Labirinto do Fauno

El laberinto del fauno · 2006

4,5
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Guillermo del Toro
Roteiro
Guillermo del Toro
Elenco
Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdú, Doug Jones, Ariadna Gil, Álex Angulo
Gêneros
Fantasia, Drama, Histórico
Ano
2006
Duração
1h58
País
México
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de O Labirinto do Fauno
Imagem: divulgação

O Labirinto do Fauno: Guillermo del Toro faz do conto de fadas uma arma contra o fascismo

SINOPSEEspanha, 1944. A jovem Ofelia se muda com a mãe grávida para um posto militar comandado pelo padrasto, o capitão Vidal, que caça guerrilheiros nas montanhas. Em um labirinto de pedra próximo, ela encontra um fauno que afirma que ela é uma princesa perdida e lhe impõe três tarefas.

O Labirinto do Fauno é o filme em que Guillermo del Toro alinhou de vez suas obsessões: monstros, infância, a Guerra Civil Espanhola e a convicção de que a fantasia não é fuga, mas forma de resistência. Ambientado em 1944, na Espanha franquista, ele conta duas histórias em paralelo e deixa claro que a mais cruel não é a dos seres fantásticos. É um conto de fadas para adultos, violento e belíssimo, que continua entre as melhores obras do diretor mexicano.

Dois mundos, uma mesma crueldade

O roteiro de Del Toro alterna entre o posto militar onde o capitão Vidal caça guerrilheiros e o labirinto onde Ofelia recebe três tarefas de um fauno de intenções duvidosas. A estrutura paralela é o grande achado do filme: cada prova fantástica espelha uma situação do mundo real, e a violência de um lado contamina o outro. O sapo gigante, o Homem Pálido com olhos nas mãos e o próprio fauno não são mais assustadores do que o padrasto, e o filme nunca deixa dúvida sobre isso. A fantasia é ambígua; o fascismo, não.

Del Toro recusa a ideia de que o conto de fadas serve para suavizar. A sequência do Homem Pálido, com a mesa farta e a regra absoluta de não comer nada, é uma das mais tensas do cinema de fantasia moderno e carrega uma crítica evidente à Igreja e à gula dos poderosos. O diretor também é brutal nas cenas realistas, sem desviar o olhar quando Vidal usa a violência, e isso dá ao filme um peso que o distingue de qualquer produção infantojuvenil. É cinema de gênero com posição política clara, feito por alguém que acredita que monstros revelam o que os homens escondem.

Sergi López e Ivana Baquero sustentam o filme

O capitão Vidal, vivido por Sergi López, está entre os grandes vilões do século: um homem meticuloso, obcecado pelo relógio do pai e convencido de que a crueldade é dever. López não pede empatia nem exagera; a frieza com que ele passa de um ato de tortura para o barbear matinal é o que assusta. Do outro lado, Ivana Baquero, com apenas onze anos nas filmagens, carrega o filme com uma seriedade que nunca parece ensaiada. Ofelia é curiosa, teimosa e moralmente firme, e a atriz entende cada uma dessas camadas sem forçar nenhuma.

O elenco de apoio é igualmente preciso. Maribel Verdú faz de Mercedes, a governanta que trabalha para Vidal enquanto ajuda a resistência, a espinha dorsal emocional da história, e a tensão silenciosa entre ela e o capitão rende algumas das melhores cenas. Doug Jones, sob horas de próteses, interpreta tanto o fauno quanto o Homem Pálido e dá a cada criatura uma linguagem corporal própria: o primeiro é lento e insinuante, o segundo é rígido e desesperado. Ariadna Gil, como a mãe de Ofelia, completa um conjunto em que ninguém está em cena por acaso.

Fotografia, design e trilha: o artesanato de Del Toro no auge

Guillermo Navarro venceu o Oscar de Fotografia e merecia. Ele separa os dois mundos pela cor: o posto militar é azul, verde e úmido, enquanto o universo do labirinto se aquece em âmbar e dourado, e conforme as histórias se aproximam as paletas começam a se misturar. Os efeitos são majoritariamente práticos, com maquiagem e próteses que também levaram estatuetas, e isso explica por que as criaturas ainda convencem duas décadas depois, quando muito do digital da época envelheceu mal. O design de produção, igualmente premiado, trata cada cenário como extensão da psicologia dos personagens.

A trilha de Javier Navarrete parte de uma canção de ninar simples, cantarolada, e a transforma em tema recorrente que atravessa o filme inteiro, ganhando orquestração conforme a história escurece. É uma escolha delicada, indicada ao Oscar, que ancora o filme na perspectiva infantil mesmo nos momentos mais violentos. A montagem de Bernat Vilaplana mantém as duas tramas em diálogo constante, e as transições entre os mundos são feitas muitas vezes dentro do próprio plano, com a câmera passando por uma árvore ou uma parede. É artesanato de primeira linha a serviço de uma visão coerente.

Vale a pena assistir O Labirinto do Fauno?

Vale muito, com o aviso de que não se trata de um filme para crianças. O Labirinto do Fauno é um conto de fadas em sua forma original, sombria e moralmente séria, e usa o gênero para falar de obediência, resistência e das histórias que inventamos para sobreviver ao insuportável. Direção, elenco, fotografia e design trabalham em sintonia rara, e o final, sem entrar em detalhes, é dos que permanecem em discussão por muito tempo depois da sessão, porque admite mais de uma leitura.

Se há uma reserva, é o fato de que a parte fantástica, por mais memorável que seja, ocupa menos tempo de tela do que o título sugere, e alguns espectadores podem sentir falta de mais labirinto e menos quartel. É uma escolha deliberada de Del Toro, coerente com a tese do filme, mas vale saber antes de entrar na sessão. Nota 4,5 de 5: uma das grandes fantasias do século e, para este crítico, o trabalho mais completo e pessoal da carreira do diretor até aqui.

Pontos fortes

  • Vilão memorável na pele de Sergi López
  • Fotografia e efeitos práticos premiados
  • Roteiro que une fantasia e política sem simplificar

Pontos fracos

  • Violência gráfica afasta parte do público
  • Trama fantástica ocupa menos tela do que o título sugere

Veredito: 4,5/5

★★★★★

O Labirinto do Fauno é um conto de fadas adulto, violento e belíssimo, em que a fantasia serve de espelho para o fascismo. Del Toro no auge do artesanato e da coerência temática. Nota 4,5 de 5.

Quer assistir filmes como O Labirinto do Fauno?

Chame no WhatsApp e venha assistir aqui.

Venha assistir aqui

Perguntas frequentes sobre O Labirinto do Fauno

O Labirinto do Fauno é filme infantil?

Não. Apesar da protagonista criança e das criaturas fantásticas, o filme tem cenas de tortura e violência gráfica e recebeu classificações restritivas em diversos países. Del Toro o concebeu como um conto de fadas para adultos, no espírito das versões originais e sombrias desse tipo de história.

O Labirinto do Fauno ganhou Oscar?

Sim, três: Melhor Fotografia para Guillermo Navarro, Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem. O filme teve seis indicações no total, incluindo Roteiro Original, Trilha Sonora e Filme Estrangeiro, representando o México, categoria em que perdeu para o alemão A Vida dos Outros.

O Labirinto do Fauno é continuação de A Espinha do Diabo?

Não há ligação direta de trama, mas Guillermo del Toro considera os dois filmes irmãos. Ambos se passam na Espanha durante ou logo após a Guerra Civil, misturam elementos sobrenaturais com a violência do período e tratam de crianças enfrentando adultos cruéis. Podem ser vistos em qualquer ordem.

Venha assistir aqui