Pôster de O Rei Leão

Crítica: O Rei Leão

The Lion King · 1994

4,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Roger Allers, Rob Minkoff
Roteiro
Irene Mecchi, Jonathan Roberts, Linda Woolverton
Elenco
Matthew Broderick, James Earl Jones, Jeremy Irons, Jonathan Taylor Thomas, Nathan Lane, Ernie Sabella
Gêneros
Animação, Aventura, Drama, Musical
Ano
1994
Duração
1h28
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de O Rei Leão
Imagem: divulgação

O Rei Leão: a tragédia shakespeariana da savana que virou a animação mais querida dos anos 1990

SINOPSESimba é um filhote de leão destinado a suceder o pai, Mufasa, como rei das Terras do Reino. Seu tio Scar, porém, trama para tomar o trono e faz de tudo para afastar o herdeiro. Exilado e carregando uma culpa que não lhe pertence, Simba cresce longe de casa, ao lado de dois amigos improváveis, até que o passado o chama de volta.

O Rei Leão nasceu como o projeto secundário de um estúdio que apostava suas fichas em outro filme, e terminou como o maior fenômeno da chamada renascença das animações. Revisitá-lo adulto é uma experiência curiosa: a grandiosidade visual e musical continua intacta, enquanto alguns atalhos do roteiro ficam mais evidentes. Ainda assim, poucos filmes infantis ousaram tratar morte, culpa e abandono com tanta franqueza, e é essa coragem que mantém a obra viva três décadas depois.

A abertura com Circle of Life ainda é o melhor começo de uma animação?

Os primeiros quatro minutos de O Rei Leão são uma declaração de intenções. Sem diálogo, só com a canção de Elton John e Tim Rice e o arranjo coral de Hans Zimmer, o filme apresenta um mundo inteiro: a hierarquia da savana, a cerimônia do nascimento, a relação entre Mufasa e Rafiki. A animação dos animais, estudada a partir de bichos reais, tem peso e textura, e o corte seco para o título, no exato clímax da música, é uma das decisões de montagem mais eficazes da história do estúdio.

Essa sequência estabelece o tom épico que o filme busca o tempo todo. O Rei Leão quer ser grande, e na maior parte do tempo consegue: a debandada dos gnus no desfiladeiro, construída com animação assistida por computador em uma época em que isso ainda era experimental, continua impressionante pela sensação de escala e pelo terror que provoca. A trilha de Zimmer, vencedora do Oscar, mistura percussão africana, coro e orquestra de um modo que define a identidade sonora do filme muito mais do que as canções pop.

Scar é o vilão que sustenta o filme

Jeremy Irons dá voz a Scar com uma ironia aristocrática que transforma cada fala em veneno elegante. É um vilão que não ruge: insinua, manipula, despreza. A canção Be Prepared, com sua encenação de desfile militar e luz verde, é o momento mais ousado e mais sombrio da animação, e dá ao personagem uma dimensão política que a maioria dos vilões infantis nunca alcança. Sem Scar, O Rei Leão seria apenas uma jornada de amadurecimento; com ele, vira tragédia de família.

O contraponto é Mufasa, que James Earl Jones interpreta com uma voz que é pura autoridade e ternura. A cena do céu estrelado, em que o pai explica ao filho a responsabilidade dos reis, funciona porque Jones acredita em cada palavra. Já Simba adulto, dublado por Matthew Broderick, é o elo mais fraco do elenco de vozes: o personagem passa boa parte do terceiro ato reagindo aos outros, e a atuação vocal não consegue dar a ele a mesma presença que o filhote, dublado por Jonathan Taylor Thomas, tem na primeira metade.

O que funciona menos no roteiro de O Rei Leão?

O problema estrutural do filme é o segundo ato. Depois de um primeiro terço denso, com a morte de Mufasa tratada com uma seriedade rara em animações, a narrativa salta anos em uma única canção, Hakuna Matata, e Simba reaparece adulto sem que tenhamos acompanhado seu crescimento interior. Timon e Pumba, dublados com timing perfeito por Nathan Lane e Ernie Sabella, são divertidíssimos, mas a filosofia do despreocupado que eles representam é apresentada e descartada de forma um tanto apressada quando o enredo precisa avançar.

Também fica a sensação de que Nala, dublada por Moira Kelly na fase adulta, existe apenas para empurrar o protagonista de volta ao caminho correto, sem arco próprio. E a resolução do conflito central depende de uma confissão forçada que resolve em segundos uma culpa carregada durante todo o filme. São escolhas compreensíveis para um longa de 88 minutos voltado às famílias, mas que impedem a obra de atingir a profundidade que sua premissa, com claros ecos de Hamlet, prometia. O filme é grandioso, mas não é tão complexo quanto parece lembrar.

Vale a pena assistir O Rei Leão?

Vale, sobretudo na versão animada original de 1994, que mantém uma expressividade de personagens que nenhuma tecnologia posterior conseguiu replicar. Para crianças, é uma introdução honesta a temas difíceis, embalada em canções que elas vão cantar por semanas. Para adultos, é um exercício de memória afetiva com qualidades objetivas: a direção de arte inspirada em paisagens reais da África Oriental, a trilha premiada, o vilão magnífico e uma sequência de abertura que segue entre as melhores já animadas.

A nota 4 reflete exatamente esse equilíbrio. O Rei Leão tem momentos de cinema grandioso e uma ousadia emocional admirável, mas o roteiro opta por atalhos no meio do caminho e o protagonista adulto não tem o carisma dos coadjuvantes. É um clássico merecido, não uma obra sem falhas. Quem revê com olhos de crítico percebe as costuras; quem revê com olhos de criança continua se emocionando. As duas reações são válidas, e o fato de o filme sustentar ambas já é um mérito considerável.

Pontos fortes

  • Trilha sonora de Hans Zimmer e canções memoráveis
  • Scar, um dos grandes vilões da animação
  • Sequências de abertura e da debandada visualmente grandiosas

Pontos fracos

  • Segundo ato apressado, com salto temporal abrupto
  • Simba adulto é o personagem menos interessante

Veredito: 4,0/5

★★★★★

O Rei Leão é um clássico pela ambição visual e musical e pela coragem de falar de morte e culpa para crianças. O roteiro tem atalhos e o protagonista adulto é apagado, mas o conjunto segue emocionando. Nota 4.

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Perguntas frequentes sobre O Rei Leão

O Rei Leão é inspirado em Hamlet?

Sim, a estrutura básica ecoa Hamlet, de Shakespeare: um príncipe cujo pai é morto pelo tio usurpador e que precisa decidir se enfrenta o passado. Os próprios realizadores reconheceram a influência, embora o filme também beba de histórias bíblicas, como as de José e Moisés, e de tradições africanas.

Quantos Oscars O Rei Leão ganhou?

O filme venceu dois Oscars em 1995: melhor trilha sonora original, para Hans Zimmer, e melhor canção original, para Can You Feel the Love Tonight, de Elton John e Tim Rice. Outras duas canções do filme, Circle of Life e Hakuna Matata, também foram indicadas na mesma categoria.

Qual a diferença entre O Rei Leão de 1994 e o de 2019?

A versão de 1994 é uma animação tradicional desenhada à mão, com personagens expressivos e estilizados. A de 2019 refaz a mesma história com animação fotorrealista, que imita imagens reais de animais. A trama é praticamente idêntica, mas o original é mais curto e costuma ser preferido pela expressividade.

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