Pôster de Corra!

Crítica: Corra!

Get Out · 2017

4,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Jordan Peele
Roteiro
Jordan Peele
Elenco
Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones, Lil Rel Howery
Gêneros
Terror, Suspense
Ano
2017
Duração
1h44
País
Estados Unidos
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Corra!
Imagem: divulgação

Corra!: Jordan Peele estreia na direção com um terror social afiado e desconfortável

SINOPSEChris, um jovem fotógrafo negro, aceita passar um fim de semana na casa de campo dos pais de sua namorada branca, Rose. A recepção calorosa da família logo dá lugar a comportamentos estranhos, e o desconforto de Chris cresce a cada conversa.

Corra! chegou cercado de curiosidade: Jordan Peele, até então conhecido pelo humor, estreava na direção com um filme de terror. O resultado surpreendeu pela precisão. Peele usa as convenções do gênero — a casa isolada, a família hospitaleira demais, os empregados de comportamento esquisito — para dissecar o racismo disfarçado de gentileza de uma elite liberal americana. É um filme que assusta, faz rir de nervoso e deixa o espectador pensando muito depois dos créditos.

Por que Corra! é considerado um marco do terror social?

O grande trunfo de Corra! é entender que o horror mais eficaz nasce do cotidiano. Antes de qualquer susto, o filme constrói uma sucessão de microagressões: o pai que insiste em dizer que teria votado em Obama uma terceira vez, os convidados que elogiam o físico de Chris como quem avalia um objeto, as perguntas aparentemente inocentes. Cada cena incomoda justamente porque é reconhecível, e o espectador passa a desconfiar de tudo antes mesmo de o roteiro revelar suas cartas.

Peele, que venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original pelo trabalho, escreve com economia admirável. Diálogos que parecem banais na primeira sessão ganham outro sentido na segunda, e o filme recompensa a revisão com uma quantidade impressionante de detalhes plantados. A sátira nunca abafa o suspense, e o suspense nunca apaga a crítica. Essa costura entre gênero e comentário social abriu caminho para uma leva de produções que tentaram repetir a fórmula, poucas com a mesma elegância.

Daniel Kaluuya carrega o filme no olhar

Daniel Kaluuya, indicado ao Oscar de Melhor Ator pelo papel, entrega uma interpretação construída em silêncios. Chris passa boa parte do filme engolindo incômodos para não parecer descortês, e o ator comunica essa contenção com mínimos gestos: um sorriso que demora a sair, um olhar que procura apoio, uma respiração mais curta. A imagem que virou símbolo do filme, com lágrimas escorrendo num rosto paralisado, é uma das mais marcantes do cinema de horror da década.

Allison Williams é uma escolha certeira como Rose, com uma naturalidade que joga a favor da narrativa. Bradley Whitford e Catherine Keener compõem pais tão gentis quanto inquietantes, e Betty Gabriel e Marcus Henderson, como os empregados da casa, entregam performances estranhíssimas que só fazem sentido completo mais tarde. Lil Rel Howery, como o amigo agente de segurança aeroportuária, funciona como alívio cômico e voz do público, embora em alguns momentos o humor quebre um pouco a tensão construída.

Direção, fotografia e trilha a serviço do desconforto

Para um estreante, Peele demonstra controle notável da linguagem. A fotografia de Toby Oliver privilegia enquadramentos simétricos e ambientes excessivamente organizados, como se a casa da família fosse uma vitrine. A montagem segura as revelações com paciência e usa cortes secos para quebrar a falsa tranquilidade. Há sequências de pura atmosfera, como a caminhada noturna pelo jardim, que provam que o diretor entende o medo como algo que se instala aos poucos, e não apenas como susto repentino.

A trilha de Michael Abels é outro acerto, com vozes que cantam em suaíli e criam uma sensação de alerta ancestral desde os créditos de abertura. O som é trabalhado com atenção especial: o tilintar de uma colher numa xícara de chá se torna, graças à mixagem e ao contexto, um dos ruídos mais ameaçadores do filme. Detalhes assim mostram que Corra! é mais do que uma boa ideia; é uma ideia executada com rigor em cada departamento técnico.

Vale a pena assistir Corra!?

Sim, e de preferência sabendo o mínimo possível sobre a trama. Corra! funciona como suspense de primeira linha para quem busca tensão e como sátira mordaz para quem quer discutir as formas sutis do racismo. É um raro filme de gênero que agrada ao fã de terror e ao espectador que normalmente evita o estilo, porque os sustos são poucos e muito bem dosados. A sensação de ameaça vem mais da situação do que de criaturas ou sangue.

A nota 4 se justifica por um terço final que, embora catártico e eficiente, abraça convenções mais tradicionais do gênero e perde um pouco da sutileza que tornava a primeira metade tão perturbadora. Algumas explicações também são entregues de forma excessivamente didática. Nada disso diminui a importância do filme, que segue como uma das estreias mais impressionantes de um diretor americano neste século e um ponto de partida obrigatório para entender o terror contemporâneo.

Pontos fortes

  • Roteiro inteligente, vencedor do Oscar
  • Atuação contida e poderosa de Daniel Kaluuya
  • Crítica social integrada organicamente ao suspense

Pontos fracos

  • Terço final mais convencional que o restante
  • Alívio cômico às vezes quebra a tensão

Veredito: 4,0/5

★★★★★

Corra! é um terror social inteligente, desconfortável e muito bem dirigido, que transforma microagressões em fonte de medo. O desfecho mais convencional tira um pouco do brilho, mas a estreia de Jordan Peele continua essencial. Nota 4 de 5.

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Perguntas frequentes sobre Corra!

Corra! ganhou Oscar?

Sim. Jordan Peele venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original por Corra!. O filme também foi indicado a Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Ator, para Daniel Kaluuya, um feito notável para uma produção de terror e, ainda por cima, de um diretor estreante.

Qual é o nome original de Corra!?

O título original é Get Out, expressão em inglês que pode ser traduzida como "saia" ou "caia fora". No Brasil, o filme foi lançado como Corra!, título que mantém o tom de alerta e urgência da versão americana e resume bem o clima da história.

Corra! é um filme de terror ou suspense?

Corra! mistura terror psicológico, suspense e sátira social. Os sustos explícitos são poucos; o medo nasce do desconforto crescente e da sensação de que algo está errado na casa da família. Por isso, costuma agradar também a quem não é fã do terror tradicional.

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