
Bacurau: o faroeste do sertão que transforma resistência popular em cinema de gênero
Bacurau é o tipo de filme que só poderia ter sido feito no Brasil e, ao mesmo tempo, fala uma língua que qualquer plateia de cinema de gênero reconhece. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles pegam o faroeste, o terror de invasão e a ficção científica distópica e os plantam no sertão de Pernambuco, com resultados que vão do humor ao choque. Premiado em Cannes, o filme é uma declaração política e uma festa cinéfila, e consegue ser as duas coisas sem pedir desculpas por nenhuma.
Como Bacurau mistura tantos gêneros sem se perder?
A chave é a paciência. A primeira metade do filme é quase um documentário observacional sobre uma comunidade: o velório de dona Carmelita, a escola, a farmácia improvisada, o caminhão-pipa, a professora, a médica alcoólatra. Os diretores apresentam Bacurau como um organismo vivo, com suas tensões internas e sua solidariedade, antes de introduzir qualquer ameaça. Quando o elemento estranho surge, o espectador já conhece o lugar como quem conhece um bairro, e cada agressão contra ele é sentida de forma pessoal, não abstrata.
A partir daí, o filme muda de pele sem aviso. O drone em forma de disco voador, a música de John Carpenter na trilha, os travellings laterais e os zooms bruscos são citações assumidas ao cinema americano dos anos 1970 e 1980, mas nunca soam como pastiche porque estão a serviço de uma história com raízes locais profundas. O cangaço, o coronelismo, o abandono do interior pelo Estado e a violência como linguagem política entram pela porta do gênero. É uma operação arriscada que funciona porque os diretores sabem exatamente o que estão citando e por quê.
O que Sônia Braga e Udo Kier trazem ao elenco?
O elenco mistura atores conhecidos, intérpretes regionais e não atores, e essa combinação dá ao filme uma textura rara. Sônia Braga, como a médica Domingas, tem poucas cenas, mas cada uma delas é um pequeno furacão, especialmente a explosão durante o velório, que revela em segundos a história de uma mulher cansada e ferida. Bárbara Colen, como Teresa, é o fio condutor da entrada na cidade, e Thomas Aquino dá ao personagem Pacote uma culpa silenciosa que o filme explora com economia. Silvero Pereira, como Lunga, rouba o filme nas cenas finais.
Udo Kier, veterano do cinema europeu e americano, é a escolha perfeita para o estrangeiro que lidera os visitantes. Ele interpreta Michael com uma polidez gelada que esconde algo desumano, e a cena em que ele canta sozinho é um dos momentos mais inquietantes do filme. Karine Teles e Antonio Saboia, como o casal do Sudeste, concentram a crítica mais ácida do roteiro ao retrato de brasileiros que se enxergam acima dos próprios compatriotas. O conjunto funciona como coral, e nenhuma atuação tenta dominar as demais.
A violência de Bacurau é gratuita ou necessária?
A violência do filme é explícita e, em alguns momentos, deliberadamente exagerada, no registro do cinema de exploração. Isso incomoda parte do público, e o incômodo é intencional. Mendonça Filho e Dornelles filmam a reação da comunidade com o mesmo prazer visual com que o cinema de gênero filma a vingança dos oprimidos há décadas, e essa escolha carrega um argumento: o sertão não é vítima passiva. O museu da cidade, que guarda a memória da violência histórica, é a chave de leitura para tudo o que acontece no terceiro ato.
Onde o filme tropeça é na caracterização dos invasores. Eles são tão caricatos, tão vazios de motivação além do sadismo, que a crítica política perde um pouco de nuance. Funciona como alegoria, mas enfraquece o suspense, porque nunca há dúvida sobre quem merece o quê. A fotografia de Pedro Sotero, com seu uso de lentes anamórficas e luz dura do sertão, e a montagem precisa compensam parte dessa fragilidade, mantendo a tensão alta mesmo quando o roteiro já entregou suas cartas. É um filme de tese que sabe ser divertido.
Vale a pena assistir Bacurau?
Vale, e com urgência. Bacurau é um dos filmes brasileiros mais importantes das últimas décadas, não apenas pelo reconhecimento internacional, com o Prêmio do Júri em Cannes em 2019, mas pelo que representa: a prova de que o cinema nacional pode dialogar com o gênero sem abrir mão da identidade. É um filme que gera conversa, que provoca risos nervosos e aplausos, e que funciona tanto em uma sala lotada quanto na revisão solitária, quando os detalhes do primeiro ato ganham novo sentido.
A nota 4 reconhece uma obra poderosa e original, com direção segura, elenco memorável e uma ideia de Brasil que poucos filmes ousaram colocar na tela. O que impede uma nota mais alta é a tendência ao maniqueísmo no retrato dos antagonistas e algumas passagens do segundo ato em que a alegoria fala mais alto que o drama. São reparos menores diante do conjunto. Bacurau é cinema de resistência feito com prazer, e isso é raro em qualquer lugar do mundo.
Pontos fortes
- Fusão original de faroeste, terror e ficção científica com raízes brasileiras
- Elenco coral afinado, com Sônia Braga e Udo Kier em destaque
- Primeiro ato que constrói a comunidade com paciência e afeto
Pontos fracos
- Antagonistas caricatos reduzem a nuance da crítica política
- Alegoria às vezes se sobrepõe ao drama no segundo ato
Veredito: 4,0/5
★★★★★Bacurau é um filme de gênero com alma de manifesto, dirigido com precisão e interpretado com força. Suas simplificações são o preço de uma ousadia que o cinema brasileiro raramente se permite. Nota 4 de 5.
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Perguntas frequentes sobre Bacurau
Bacurau é baseado em uma história real?
Não. Bacurau é uma cidade fictícia e a trama é inteiramente inventada, ambientada em um futuro próximo não especificado. Os diretores, porém, se inspiraram em elementos reais da história do Nordeste brasileiro, como o cangaço, o coronelismo e o abandono de comunidades do interior pelo poder público.
Onde Bacurau foi filmado?
O filme foi rodado no sertão do Rio Grande do Norte, na região do Seridó, embora a história se passe em Pernambuco. A cidade cenográfica foi construída aproveitando um povoado existente, e parte dos moradores da região participou das filmagens como figurantes e intérpretes de papéis menores.
Que prêmio Bacurau ganhou em Cannes?
Bacurau recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, dividido com o francês Os Miseráveis, de Ladj Ly. É um dos prêmios mais importantes da competição principal do festival, e o reconhecimento ajudou a projetar o filme internacionalmente meses antes da estreia comercial no Brasil, em agosto daquele ano.



