Pôster de Bacurau

Crítica: Bacurau

2019

4,0
★★★★★Nota NetCine · de 0 a 5
Direção
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Roteiro
Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Elenco
Sônia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Karine Teles
Gêneros
Drama, Suspense, Ação
Ano
2019
Duração
2h11
País
Brasil
Por Redação NetCinePublicado em Como avaliamos
Cena de Bacurau
Imagem: divulgação

Bacurau: o faroeste do sertão que transforma resistência popular em cinema de gênero

SINOPSEEm um futuro próximo, a pequena Bacurau, no sertão de Pernambuco, se reúne para o velório de sua matriarca. Pouco depois, os moradores percebem que a cidade sumiu dos mapas digitais e que estranhos começam a rondar a região. Isolada e sem apoio do poder público, a comunidade precisa descobrir o que está acontecendo e decidir como reagir.

Bacurau é o tipo de filme que só poderia ter sido feito no Brasil e, ao mesmo tempo, fala uma língua que qualquer plateia de cinema de gênero reconhece. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles pegam o faroeste, o terror de invasão e a ficção científica distópica e os plantam no sertão de Pernambuco, com resultados que vão do humor ao choque. Premiado em Cannes, o filme é uma declaração política e uma festa cinéfila, e consegue ser as duas coisas sem pedir desculpas por nenhuma.

Como Bacurau mistura tantos gêneros sem se perder?

A chave é a paciência. A primeira metade do filme é quase um documentário observacional sobre uma comunidade: o velório de dona Carmelita, a escola, a farmácia improvisada, o caminhão-pipa, a professora, a médica alcoólatra. Os diretores apresentam Bacurau como um organismo vivo, com suas tensões internas e sua solidariedade, antes de introduzir qualquer ameaça. Quando o elemento estranho surge, o espectador já conhece o lugar como quem conhece um bairro, e cada agressão contra ele é sentida de forma pessoal, não abstrata.

A partir daí, o filme muda de pele sem aviso. O drone em forma de disco voador, a música de John Carpenter na trilha, os travellings laterais e os zooms bruscos são citações assumidas ao cinema americano dos anos 1970 e 1980, mas nunca soam como pastiche porque estão a serviço de uma história com raízes locais profundas. O cangaço, o coronelismo, o abandono do interior pelo Estado e a violência como linguagem política entram pela porta do gênero. É uma operação arriscada que funciona porque os diretores sabem exatamente o que estão citando e por quê.

O que Sônia Braga e Udo Kier trazem ao elenco?

O elenco mistura atores conhecidos, intérpretes regionais e não atores, e essa combinação dá ao filme uma textura rara. Sônia Braga, como a médica Domingas, tem poucas cenas, mas cada uma delas é um pequeno furacão, especialmente a explosão durante o velório, que revela em segundos a história de uma mulher cansada e ferida. Bárbara Colen, como Teresa, é o fio condutor da entrada na cidade, e Thomas Aquino dá ao personagem Pacote uma culpa silenciosa que o filme explora com economia. Silvero Pereira, como Lunga, rouba o filme nas cenas finais.

Udo Kier, veterano do cinema europeu e americano, é a escolha perfeita para o estrangeiro que lidera os visitantes. Ele interpreta Michael com uma polidez gelada que esconde algo desumano, e a cena em que ele canta sozinho é um dos momentos mais inquietantes do filme. Karine Teles e Antonio Saboia, como o casal do Sudeste, concentram a crítica mais ácida do roteiro ao retrato de brasileiros que se enxergam acima dos próprios compatriotas. O conjunto funciona como coral, e nenhuma atuação tenta dominar as demais.

A violência de Bacurau é gratuita ou necessária?

A violência do filme é explícita e, em alguns momentos, deliberadamente exagerada, no registro do cinema de exploração. Isso incomoda parte do público, e o incômodo é intencional. Mendonça Filho e Dornelles filmam a reação da comunidade com o mesmo prazer visual com que o cinema de gênero filma a vingança dos oprimidos há décadas, e essa escolha carrega um argumento: o sertão não é vítima passiva. O museu da cidade, que guarda a memória da violência histórica, é a chave de leitura para tudo o que acontece no terceiro ato.

Onde o filme tropeça é na caracterização dos invasores. Eles são tão caricatos, tão vazios de motivação além do sadismo, que a crítica política perde um pouco de nuance. Funciona como alegoria, mas enfraquece o suspense, porque nunca há dúvida sobre quem merece o quê. A fotografia de Pedro Sotero, com seu uso de lentes anamórficas e luz dura do sertão, e a montagem precisa compensam parte dessa fragilidade, mantendo a tensão alta mesmo quando o roteiro já entregou suas cartas. É um filme de tese que sabe ser divertido.

Vale a pena assistir Bacurau?

Vale, e com urgência. Bacurau é um dos filmes brasileiros mais importantes das últimas décadas, não apenas pelo reconhecimento internacional, com o Prêmio do Júri em Cannes em 2019, mas pelo que representa: a prova de que o cinema nacional pode dialogar com o gênero sem abrir mão da identidade. É um filme que gera conversa, que provoca risos nervosos e aplausos, e que funciona tanto em uma sala lotada quanto na revisão solitária, quando os detalhes do primeiro ato ganham novo sentido.

A nota 4 reconhece uma obra poderosa e original, com direção segura, elenco memorável e uma ideia de Brasil que poucos filmes ousaram colocar na tela. O que impede uma nota mais alta é a tendência ao maniqueísmo no retrato dos antagonistas e algumas passagens do segundo ato em que a alegoria fala mais alto que o drama. São reparos menores diante do conjunto. Bacurau é cinema de resistência feito com prazer, e isso é raro em qualquer lugar do mundo.

Pontos fortes

  • Fusão original de faroeste, terror e ficção científica com raízes brasileiras
  • Elenco coral afinado, com Sônia Braga e Udo Kier em destaque
  • Primeiro ato que constrói a comunidade com paciência e afeto

Pontos fracos

  • Antagonistas caricatos reduzem a nuance da crítica política
  • Alegoria às vezes se sobrepõe ao drama no segundo ato

Veredito: 4,0/5

★★★★★

Bacurau é um filme de gênero com alma de manifesto, dirigido com precisão e interpretado com força. Suas simplificações são o preço de uma ousadia que o cinema brasileiro raramente se permite. Nota 4 de 5.

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Perguntas frequentes sobre Bacurau

Bacurau é baseado em uma história real?

Não. Bacurau é uma cidade fictícia e a trama é inteiramente inventada, ambientada em um futuro próximo não especificado. Os diretores, porém, se inspiraram em elementos reais da história do Nordeste brasileiro, como o cangaço, o coronelismo e o abandono de comunidades do interior pelo poder público.

Onde Bacurau foi filmado?

O filme foi rodado no sertão do Rio Grande do Norte, na região do Seridó, embora a história se passe em Pernambuco. A cidade cenográfica foi construída aproveitando um povoado existente, e parte dos moradores da região participou das filmagens como figurantes e intérpretes de papéis menores.

Que prêmio Bacurau ganhou em Cannes?

Bacurau recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2019, dividido com o francês Os Miseráveis, de Ladj Ly. É um dos prêmios mais importantes da competição principal do festival, e o reconhecimento ajudou a projetar o filme internacionalmente meses antes da estreia comercial no Brasil, em agosto daquele ano.

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